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	<title>O Indesmentível &#187; Cidade a Tossir</title>
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	<description>A verdade, doa a quem não ler</description>
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		<title>PROGRAMA ZEN</title>
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		<pubDate>Sat, 30 Apr 2011 10:00:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge André Catarino</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Bianca acedeu ao convite de Baltazar para um programa Zen, deixando-o num estado de tal excitação que este necessitou rever um episódio de Os Jovens Heróis de Shaolin para restabelecer os índices de entusiasmo. Enquanto assistia ao episódio, imitava os movimentos de kung fu numa coreografia tão singular que parecia estar a treinar tae-kwon-do. Na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Bianca  acedeu ao convite de Baltazar para um programa Zen, deixando-o num  estado de tal excitação que este necessitou rever um episódio de Os  Jovens Heróis de Shaolin para restabelecer os índices de entusiasmo.  Enquanto assistia ao episódio, imitava os movimentos de kung fu numa  coreografia tão singular que parecia estar a treinar tae-kwon-do. Na  realidade, Baltazar não entendia a diferença entre as duas artes.  Agradava-lhe a fonética dos termos. Gritava-a bem alto defronte a um  espelho, fazendo caretas ao jeito dos bonecos animados de mangá. Eis um  mistério por resolver: porquê chamar animados a uns desenhos com  posições petrificadas onde não se vislumbra um único disfarce de músculo  em movimento? <a href="http://www.oindesmentivel.com/wp-content/uploads/2009/07/cartao-cidade.gif" rel="lightbox[11902]"><img class="alignleft size-full wp-image-3206" title="Cidade a Tossir" src="http://www.oindesmentivel.com/wp-content/uploads/2009/07/cartao-cidade.gif" alt="cartao cidade PROGRAMA ZEN" width="300" height="258" /></a>Neste sentido, os bonecos de mangá reflectiam o espírito  estático de Baltazar. No fundo, uma erupção de judo, ninjutsu, kenjutsu,  laijutsu, karaté, kempo, aikido, yoseikan, kyudo, kendo, mas à  superfície, ah, à superfície, sempre a mesma pacífica inércia. Ainda  assim, o suficiente para deslocar uma vértebra e ficar com o sacro do  avesso. Consultou um massagista ayurvédico, mas os óleos não lhe  serviram no desvio das vértebras. Procurou então a massagem taoista,  tailandesa, shantala, shiatsu, tui na, mas sem qualquer efeito  satisfatório. Só o tempo poderia curar o que as massagens não resolviam.  Estava na hora do encontro com Bianca. Levou-a a provar sushi. No  decorrer da refeição, porque as palavras sempre o traíam e o silêncio  era mais forte do que ele, ofereceu a Bianca um origami e assobiou uma  melodia min&#8217;y?. Bianca sentiu-se levitar, o diria do estado de  embriaguez passional em que se encontrava não fosse o caso de a  levitação ter sido provocada por um excesso de gases produzidos pelo  sushi mal confeccionado. Indisposta, devido a uma gastroenterite  altissonante, Bianca sugeriu que regressassem a casa. Já em casa,  Baltazar disponibilizou-se para lhe arrumar a mobília segundo as regras  feng shui. Bianca achou o máximo, mas fechou-se na casa de banho a  evacuar tudo o que lhe restava nos intestinos de tai chi chuan e  medicinas congénitas. Aliviada a tripa, sentou-se no chão em posição  yôgui. Baltazar pensou então que chegara a hora de atacar os seus  propósitos e hipnotizou Bianca com um longo, lento e monocórdico mantra,  acompanhado de ásanas e kriyás e bandhas e pránáyámas e yôganidrás e  samyamas adequados. O efeito foi tão poderoso que mal se aperceberam  estavam ambas as partes num sonolento reiki de ressonadelas tântricas ao  som do ronronar dos gatos persas, os quais rondavam o incenso ateado  com felina desconfiança.</p>
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		<title>O GOOGLE SABE TUDO</title>
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		<pubDate>Sun, 03 Apr 2011 19:00:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mário Calado</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidade a Tossir]]></category>

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		<description><![CDATA[Baltazar ligou o computador, abriu a página do Google e pesquisou: “técnicas para assassinar gatos persas”. O Google sabe tudo, há-de saber qual a melhor forma de assasinar gatos persa. Entre 73.200 resultados, a pesquisa revelou-se proveitosa. Baltazar descobriu dezassete técnicas para matar gatos persa, concentrando-se nas que lhe pareceram menos inviáveis. Enumerou-as e foi [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Baltazar ligou o computador, abriu a página do Google e pesquisou: “técnicas para assassinar gatos persas”. O Google sabe tudo, há-de saber qual a melhor forma de assasinar gatos persa. Entre 73.200 resultados, a pesquisa revelou-se proveitosa. Baltazar descobriu dezassete técnicas para matar gatos persa, concentrando-se nas que lhe pareceram menos inviáveis. Enumerou-as e foi excluindo, uma a uma, as que, pela dificuldade de execução, se lhe afiguravam impossíveis de concretizar: 1. enfardamento com massinhas de letras;<a href="http://www.oindesmentivel.com/wp-content/uploads/2009/07/cartao-cidade.gif" rel="lightbox[11738]"><img class="alignleft size-full wp-image-3206" title="Cidade a Tossir" src="http://www.oindesmentivel.com/wp-content/uploads/2009/07/cartao-cidade.gif" alt="cartao cidade O GOOGLE SABE TUDO " width="300" height="258" /></a> 2. afogamento em óleo de amêndoas doces; 3. gazeamento de tipo suíno, bovino ou à base de excrementos de aves de capoeira; 4. enforcamento com fio dentário da marca Odontine; 5. estrangulamento de tipo mento (Baltazar tinha dúvidas quanto à eficácia do processo); 6. overdose de música concreta alemã; 7. empalamento em palitos de dente, espeto para churrasco, palitos para picolé, pazinhas para sorvete, entre outros; 8. tortura de sono por meio de infestação com pulgas assassinas; 9. exposição cumulativa e excessiva a palestras sobre espiritualidades, angeologia, alquimia, astrologia, mitologia nórdica, numerologia, <em>feng shui</em>, cabalística, esoterismo, maçonaria e afins; 10. electrocussões repetidas em caixinhas pavlovianas; 11. injecção intravenosa de conceitos de direito fiscal; 12. tortura psicológica à base do preenchimento de declarações, solicitações, minutas, inquéritos em instituições estatais assim como por sujeição às listas de espera em centros de saúde, consultórios médicos, repartições de finanças, tribunais, conservatórias, serviços de estrangeiros e fronteiras, etc.; 13. apedrejamento, queima, decapitação e crucificação (caso os persas revelassem inclinações judaico-cristãs); 14. leitura, tal como escrita, de novelas surrealistas do avesso; 15. a menos que se desejasse uma morte lenta, uma valente dose de mau-olhado segundo as técnicas antigas do Gigante e Verdadeiro Capa de Aço, mestre São Cipriano; 16. visionamento de programas televisivos apresentados por figuras histéricas e estridentes, telejornais com alinhamento urbano-depressivo, desenhos animados do tempo em que ainda havia a Checoslováquia, concursos de cultura geral com apresentadores burros que nem portas, programação religiosa ao fim da tarde e nas manhãs de domingo, televendas e debates (o que vai dar ao mesmo), entre congéneres que seria exaustivo enumerar. Restava uma opção. A última. Aquela que, segunda Baltazar, permitir-lhe-ia vingar com inteligência, prumo, e eficiência devidas o assassinato de seu querido, estimado e saudoso pombo Benjamim: execução por convivência com pseudo-intelectuais (com intelectuais também dava, embora se dispensasse a tortura prolongada). E na sequência desta suprema descoberta, Baltazar lembrou-se de convidar Bianca para um programa <em>zen</em>.</p>
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		<title>VIDENTE</title>
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		<pubDate>Sat, 12 Mar 2011 12:15:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>natercia</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Mas Bianca pressentiu a tristeza em que Baltazar andava. Falou-lhe num vidente que trabalhava através da Internet, talvez pudesse pô-lo em contacto espiritual, isto é, cibernético-espiritual com seu amado e finado pombo Benjamim. Conhecido por Zé Carpinteiro, o vidente apresentava-se em sítio graficamente apelativo como Zé Técnico – mestre em vidência holotelemixedmultimedianética. Só trabalho para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mas Bianca pressentiu a tristeza em que Baltazar andava. Falou-lhe num vidente que trabalhava através da Internet, talvez pudesse pô-lo em contacto espiritual, isto é, cibernético-espiritual com seu amado e finado pombo Benjamim. Conhecido por Zé Carpinteiro, o vidente apresentava-se em sítio graficamente apelativo como Zé Técnico – mestre em vidência holotelemixedmultimedianética. Só trabalho para o bem, não levo nada, cada qual dá o que tem para ajuda de custos. Baltazar ficou encantado com a possibilidade de contactar seu pombo Benjamim, podendo assim esclarecer toda a verdade já de todo esclarecida sobre o seu desaparecimento. Efectuado um depósito <a href="http://www.oindesmentivel.com/wp-content/uploads/2009/07/cartao-cidade.gif" rel="lightbox[11629]"><img class="alignleft size-full wp-image-3206" title="Cidade a Tossir" src="http://www.oindesmentivel.com/wp-content/uploads/2009/07/cartao-cidade.gif" alt="cartao cidade VIDENTE" width="300" height="258" /></a>de 5 €, de pronto surgiu no monitor a mensagem: o seu contributo possibilitar-lhe-á aceder ao programa de chamamento espiritual por via cibernética. Não garantimos o sucesso da operação. Se pretender outro tipo de trabalho, como sejam os de exorcismo, bruxedo, magia, esguerimanço, oniromância, brizomância, feitiçaria, etc., deverá aceder ao painel dos trabalhos do vidro encantado (designação inspirada em Cipriano, o gigante e verdadeiro capa de aço), se a sua intenção consistir em aparições, contactos, etc., siga as próximas instruções: olá, o meu nome é Zé Técnico, sou mestre de vidência por meio de holotelemixedmultimedianética, não levo nada pelo trabalho realizado, as pessoas contribuem com o que têm para ajudas de custo, escolha o tipo de trabalho que deseja depois de fazer o seu donativo. Assim que depositou mais 5 €, Baltazar apressou-se a designar o seu desejo num motor de pesquisa: «falar com pombos-correios desaparecidos, eventualmente mortos». Os resultados da pesquisa foram extensos, consistiam em 313 orações milagrosas contra mau-olhado e quebranto, para purgação das almas dos pombos, a serem praticadas sempre que um demónio se enrolasse no corpo do bicho. Baltazar começou a sentir-se enrolado, ao que resolveu <em>signar out</em> o sítio do mestre que só trabalhava para o bem e não levava senão o que as pessoas tinham para dar. Porém, ao tentar sair do sítio, uma voz grave e, podemos dizê-lo, persuasiva, vinda do fundo dos fundos dos cabos que nos levam pelo mundo ao mundo dos mundos, fez-se escutar… Era, não havia dúvidas, seu pombo Benjamim. Baltazar concentrou-se e tentou controlar as emoções. Seu pombo Benjamim, que aprendera a miar lá do alto das alturas, revelou a causa da tragédia em que se vira fatidicamente envolvido: «Foram os persas, os malditos persas… visão sinistra… o mensageiro e o corifeu… perante este abismo de infortúnios… ó impetuoso… são eles os culpados deste desastre tão grande, tão memorável, que nunca golpe tamanho feriu e despejou… responde aos meus gritos com os teus gritos.» E assim como veio, assim se foi a voz. Para Baltazar não restavam dúvidas, era urgente vingar seu pombo… dar cabo dos persas… esses miau! miau! que se preparassem para o esmagamento da desgraça.</p>
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		<title>TRANQUILIDADE</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Mar 2011 00:00:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mário Calado</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Mas nunca tudo é um nada que se resolverá a si mesmo. Por mais que se sentisse fora de tudo, Baltazar sabia que quem está do lado de fora de alguma coisa está sempre do lado de dentro de outra coisa qualquer. Quem se coloca do lado de fora de alguma coisa repara com a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mas nunca tudo é um nada que se resolverá a si mesmo. Por mais que se sentisse fora de tudo, Baltazar sabia que quem está do lado de fora de alguma coisa está sempre do lado de dentro de outra coisa qualquer. Quem se coloca do lado de fora de alguma coisa repara com a maior das facilidades que dentro de tudo muitas coisas se passam fora de nada. Assim temos que dentro da realidade passam-se muitas ficções, a realidade é um discorrer de ficções sem fim. Nós próprios, se repararmos, somos uma realidade cuja matéria essencial é composta de um tecido ficcional a que damos o nome de pensamento. <a href="http://www.oindesmentivel.com/wp-content/uploads/2009/07/cartao-cidade.gif" rel="lightbox[11594]"><img class="alignleft size-full wp-image-3206" title="Cidade a Tossir" src="http://www.oindesmentivel.com/wp-content/uploads/2009/07/cartao-cidade.gif" alt="cartao cidade TRANQUILIDADE" width="300" height="258" /></a>Os números, as palavras, as imagens, a memória, tudo o que nos suporta, funda e grava na história perdida do tempo é pura ficção. A nossa memória, por exemplo, é ficção. É ficção que se molda com o tempo, à medida que os dias vão passando, ou seja, à medida que os dias vão crescendo sobre as coisas memorizadas. Digamos que a coisa memorizada é como um terreno que vai sendo calcado, ou, se preferirmos, como a base de uma cadeira que se vai adaptando ao peso do corpo, ou, se quisermos ainda, como a pele duns sapatos a adaptarem-se aos pés. E à medida que cresce para dentro da memória o corpo ajusta-se à morte. Esta é a lei ontológica que mais oprime o cidadão, levando-o a empunhar punhais contra a sua própria condição. A história do cidadão é a história de um homem a empunhar punhais contra a sua própria natureza. O cidadão nunca gostou de si. O cidadão das cidades que tossem é um poema satírico que se volta contra si próprio, não se suporta porque não aprendeu a conviver com as madeixas da sua insignificante inutilidade. Nas cidades que tossem as palavras calam-se para que os cidadãos se recordem, mas nenhum esplendor comove já o cidadão, ocupado a reconciliar-se consigo próprio, com a imagem que tem de si próprio, com as suas ficções, essas ficções que povoam a sua memória e o endurecem, embrutecem, emudecem. É essa a razão que justifica o gosto que o cidadão nutre pelas coisas ditas milagrosas. Ele gosta de ver algo onde nada existe, projectando os seus anseios nessas alucinações para assim justificar tudo o que vislumbra dentro de si e que mais ninguém lhe reconhece. Veja-se a mulher que pela manhã se dirige ao espelho gabando-lhe a sorte. Para essa mulher, a sorte não é ela poder ver-se ao espelho. O espelho é que tem a sorte de poder observá-la. Ou o homem que nunca ganha o jogo da vida por mero azar. Repare-se que esse homem nunca perde, ele pura e simplesmente não ganha. O seu azar não é a medida do seu fracasso, é antes a razão da sua vida. Nas cidades que tossem, os cidadãos já só comunicam com as suas próprias ficções. A gente tenta falar com alguém e repara que tudo chega deturpado ao receptor, tudo chega amoldado à razão das suas ficções. A gente parece que anda a comunicar em línguas diferentes. Parece que cada qual tem o seu sistema linguístico ? íntimo, pessoal, intransmissível. Nas cidades que tossem, os cidadãos defendem-se uns dos outros falando para dentro, olhando para dentro, floreando a realidade com as flores colhidas nos jardins das suas ficções mais particulares. No fundo, andamos todos a falar uns com os outros sem nunca deixarmos de falar apenas com nós próprios. E cada outro é apenas um próprio que consigo mesmo fala. Assim abrigava Baltazar, dentro de si, uma debilitadora solidão. Bianca e os gatos permaneciam por perto. Perto de estarem todos ausentes uns dos outros. Perto apenas de estarem sós. Cada um a pensar de si para si no que há-de dizer, ou seja, todos calados, isolados, asfixiantemente tranquilos.</p>
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		<title>ALUCINAÇÕES</title>
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		<pubDate>Sat, 15 Jan 2011 16:15:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marta</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Após a defumação de 1500 poemas, Baltazar começou a sentir comichosas alucinações. Seu pombo Benjamim aparecia-lhe em pedaços da existência que ele não conseguia definir se eram bocados de sonho ou cibos de realidade. A princípio julgou que aquelas aparições eram o efeito natural de um «sono equívoco», depois ponderou a possibilidade de serem projecções [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Após a defumação de 1500 poemas, Baltazar começou a sentir comichosas alucinações. Seu pombo Benjamim aparecia-lhe em pedaços da existência que ele não conseguia definir se eram bocados de sonho ou cibos de realidade. A princípio julgou que aquelas aparições eram o efeito natural de um «sono equívoco», depois ponderou a possibilidade de serem projecções “hologramáticas” dos seus desejos mais recalcados, até que, por fim, se lhe tornou evidente a morte do animal e que aquelas aparições não mais eram do que o Senhor Bom Deus a castigá-lo pela sua desmesurada imprevidência. Baltazar sentiu-se profundamente arrependido durante pelo menos 5 segundos, passado o que o arrependimento deu lugar a uma espécie de pena, que vinha muito a calhar mas foi tão efémera quanto o arrependimento havia sido: 5 segundos.<a href="http://www.oindesmentivel.com/wp-content/uploads/2009/07/cartao-cidade.gif" rel="lightbox[11241]"><img class="alignleft size-full wp-image-3206" title="Cidade a Tossir" src="http://www.oindesmentivel.com/wp-content/uploads/2009/07/cartao-cidade.gif" alt="cartao cidade ALUCINAÇÕES" width="300" height="258" /></a> A pena enrolou-se-lhe com a raiva (primeiro de si próprio – 2 segundos; depois ao mundo em geral – 4 segundos). Foram, mais coisa menos coisa, seis segundos de raiva. Então a raiva transformou-se-lhe num ódio vindo não se sabe de onde: 15 segundos. O ódio deu em rancor. 10 segundos. O rancor metamorfoseou-se-lhe em desejo de vingança. E nesse momento, como um camião de emoções embatendo contra uma muralha de aço, melhor dizendo, como um caudal de emoções sendo barrado pela pedra, melhor ainda, como uma torrente de emoções desmoronando sobre o seu peito e travando-se-lhe nas vísceras, foi o pensamento de Baltazar. Impunha-se saber como se vingaria Baltazar da perda de seu pombo predilecto. Baltazar desconhecia os factos por trás do desaparecimento de Benjamim. Desconfiava apenas das razões: a sua intratável ausência. Não sejamos hipócritas: o nosso herói pensou em suicidar-se. Afinal, que outro destino para os poetas? Só assim vingaria com justiça, ou seja, no culpado, a morte do seu pombo. Fora de questão. Impunha-se o esclarecimento dos factos. Só então, esclarecidas as dúvidas, Baltazar se decidiria sobre o destino a dar à história. Chegado a esta conclusão, Baltazar enrolou mais um charro e refastelou-se em frente ao televisor a ver um episódio de McGyver. Adormeceu. Quando acordou, fez um esforço danado para se lembrar das conclusões a que havia chegado antes de adormecer. Como não conseguiu repor os raciocínios, muito menos a lógica das emoções que o havia impelido a uma conclusão que era agora apenas uma vaga ideia, resolveu a única coisa que em toda a sua vida foi exímio em resolver: deixar os dias passar e passar pelos dias como se tudo fosse esse nada que um dia se resolverá a si mesmo.</p>
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		<title>O LUGAR-COMUM</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Dec 2010 08:00:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Tiago DaCunha Caetano</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Todos os lugares-comuns são estúpidos, embora nas cidades que tossem representem uma certa forma de inteligência. Inclusive aquele de reconhecer ao lugar-comum uma ponta de verdade simplesmente por ser comum. O mundo está pejado de estapafúrdicos lugares-comuns e o que é comum não deixa de ser estapafúrdico só por ser comum. Deus é um lugar-comum, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Todos os lugares-comuns são estúpidos, embora nas cidades que tossem representem uma certa forma de inteligência. Inclusive aquele de reconhecer ao lugar-comum uma ponta de verdade simplesmente por ser comum. O mundo está pejado de estapafúrdicos lugares-comuns e o que é comum não deixa de ser estapafúrdico só por ser comum. Deus é um lugar-comum, tal como o Pai Natal. No entanto, a generalidade das pessoas não consegue ver para lá do lugar-comum. Este deverá ser um lugar de encontro e uma ferramenta de partilha. Enquanto lugar de encontro é apenas a negação da personalidade, é a demissão de um pensamento autónomo pela submissão a um pensamento comum. O lugar-comum é sinónimo de submissão, de preguiça, de irresponsabilidade e indiferença, de abdicação, de apostasia. Como nas cidades que tossem circula a presunção de que já tudo foi criado, imaginado e pensado, nada poderá então ser original. Assim o decreta o império do lugar-comum. As pessoas apreciam-no porque são preguiçosas, porque o lugar-comum proporciona-lhes abstenção, dá-lhes um certo conforto e alguma consolação, não as obriga a esforços complementares. <a href="http://www.oindesmentivel.com/wp-content/uploads/2009/07/cartao-cidade.gif" rel="lightbox[10974]"><img class="alignleft size-full wp-image-3206" title="Cidade a Tossir" src="http://www.oindesmentivel.com/wp-content/uploads/2009/07/cartao-cidade.gif" alt="cartao cidade O LUGAR COMUM" width="300" height="258" /></a>As pessoas gostam de sentir que pensam umas como as outras, que pensam o mesmo que os outros ou que os outros pensam o mesmo que elas. Julgam-se mais integradas por se verem repetidas no discurso habitual, não percebendo que, no fundo, são apenas sombra de banalidades e trivialidades sem qualquer efeito prático. Verdade seja dita: nas cidades que tossem o lugar-comum não é trivial, é curricular, visionário, poderoso, persuasivo, profético. O cidadão tossegoso não está interessado em mundos perfeitos. Julga que a perfeição é um ideal filosófico meramente conjecturável. Por isso, toca de arrumar as utopias no fundo de arcas bafientas. As utopias não servem as cidades que tossem, estas são e estão servidas pelo congregacional lugar-comum. Nada de fracturas! Vivam os homens que opinam sobre tudo não dizendo peva. Mestres do lugar-comum, vinculam a ilusão de um saber partilhável. Partilhável? Partilhar é proporcionar ao outro aquilo que ele não tem. O lugar-comum é de todos, ainda que, por isso mesmo, não seja de ninguém. Logo, não se partilha. Ninguém pode partilhar aquilo que não tem nem aquilo que é de todos. Excepto nas cidades que tossem. Um dos lugares-comuns mais frequentes nas cidades que tossem é este: só damos valor às coisas quando não as temos. Este lugar-comum não só é falso como é arrogantemente dissimulador. Pretende dissimular duas evidências: que não damos valor a nada senão a nós próprios, que somos completamente indiferentes à perda. O tempo tudo cura, dizemos. É outro lugar-comum que nega o primeiro, na medida em que afirma que o esquecimento é mais forte do que o poder de lembrar. Quando perdemos uma coisa, das duas uma: ou investimos prontamente em algo que a substitua ou, pura e simplesmente, limitamo-nos a deixar que o esquecimento faça o seu trabalho. Porque o sentimento de perda não valida o outro, apenas denuncia um desconforto íntimo e pessoal. Ninguém sente a falta de um outro. As pessoas sentem falta de algo que faz parte de si próprias, ou seja, sentem-se na falta de uma parte de si próprias. E este egoísmo é a raiz das cidades que tossem.</p>
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		<title>1500 ELEGIAS</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Nov 2010 08:00:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mário Calado</dc:creator>
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		<description><![CDATA[No decorrer de uma crise sonâmbula, o pombo Benjamim aproximou-se dos gatos persas. Qual Cristo chegado à Terra, desceu das alturas para proclamar seu amor fraterno e universal. «Curvo-me perante vossa dor, vosso trauma e vossa fome. Aceitai-me em vossas garras, assim como eu vos aceitarei em meu papo depenado». Sem que esboçassem qualquer emoção, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No decorrer de uma crise sonâmbula, o pombo Benjamim aproximou-se dos gatos persas. Qual Cristo chegado à Terra, desceu das alturas para proclamar seu amor fraterno e universal. «Curvo-me perante vossa dor, vosso trauma e vossa fome. Aceitai-me em vossas garras, assim como eu vos aceitarei em meu papo depenado». Sem que esboçassem qualquer emoção, os gatos não foram de meias medidas: trucidaram o pombo até ao ínfimo dos ossos, satisfazendo seus estômagos esganados e ceifando a fome que há muito lhes estabelecia a identidade. <a href="http://www.oindesmentivel.com/wp-content/uploads/2009/07/cartao-cidade.gif" rel="lightbox[10805]"><img class="alignleft size-full wp-image-3206" title="Cidade a Tossir" src="http://www.oindesmentivel.com/wp-content/uploads/2009/07/cartao-cidade.gif" alt="cartao cidade 1500 ELEGIAS" width="300" height="258" /></a>No termo da consoada, cada um guardou para si uma pena do pombo e foram unânimes em reconhecer a pertinência do discurso proferido antes do banquete. Era a segunda vez que Baltazar dava pela falta do pombo, embora da primeira as circunstâncias pessoais tivessem atenuado as perturbações colectivas. Agora, o mundo andava diferente. Baltazar comovia-se com outra facilidade perante a falta dos que mais estimava. Baltazar sentiu desenterrarem-se-lhe no coração sentimentos que há muito não sentia. Galgou telhados, esquinas, apeadeiros, rotundas, cais, bairros de má fama, jardins, praças e quintais em busca de seu pombo predilecto. Só na escultura erguida no centro centralíssimo da rotunda outrora inaugurada, foram para cima de 100 andares cuidadosamente vistoriados. Nem um indício de Benjamim. A princípio Baltazar deprimiu, estado de alma frequente em quem não encontra aquilo que procura. Mas esse princípio foi apenas o tempo de esfregar os olhos. A depressão deu então lugar a uma fecunda e romântica nostalgia, a uma melancolia insuportável. O desaparecimento, a ausência, a perda, a saudade, seriam motivo para 1500 inspiradas elegias. Se é justo acusar ao grosso da obra produzida desigual inspiração, não é de todo inadequado gabar-lhe o tom emotivo sem mácula sentimentalista, uma nostalgia no percentil adequado em poemários congéneres, a inefável elegância dos versos, o domínio da prosódia, o colorido do amor dentro da dor da perda e da perda da dor, do sofrimento amargo da ausência e da ausência amarga do sofrimento, a ternura e humildade do estilo, assim como o florilégio naïf de alguns sentimentos curtos, a floração de uma afectividade tão acentuada quão lúcida, a preocupação constante com a métrica livre, precursora de um lirismo mais experimental – se bem que uma métrica livre obrigada a preocupações constantes não seja exactamente livre –, o talento na invenção de imagens de índole metafórica e de metáforas de índole imagética, a natureza simbolista das trovas de sabor clássico, o idealismo dos cânticos de harmonia tão natural que dir-se-iam de pombo, a poderosa sonoridade rítmica em cada estrofe, em cada verso, em cada palavra, em cada letra parcimoniosamente seleccionadas, sem descurar o sentido dos raciocínios e a lógica do discurso, enfim uma susceptibilidade distinta e radicalmente apurada tanto no imagismo disciplinado como na supressão do hermetismo elíptico que voga nas jubilosas poéticas de registo contemporâneo. 1500 inspiradíssimas elegias e 60 milhões de versos sobre saudade e perda. A obra, integralmente manuscrita em mortalhas king size, nunca chegaria a ser editada, optando o autor por defumá-la sob a forma de charros de hidroerva.</p>
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		<title>O CICLO DO AMOR</title>
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		<pubDate>Sat, 13 Nov 2010 12:41:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge André Catarino</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O telefonema de Baltazar deixou Bianca como uma montanha a parir um rato (imagem que, tendo em conta as dimensões da pessoa em causa, será fácil de imaginar). Tudo não passara de uma tempestade num copo de água, diremos mesmo que tudo não passara de uma tempestade num cálice de vinho do Porto. Bianca percebia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O telefonema de Baltazar deixou Bianca como uma montanha a parir um rato (imagem que, tendo em conta as dimensões da pessoa em causa, será fácil de imaginar). Tudo não passara de uma tempestade num copo de água, diremos mesmo que tudo não passara de uma tempestade num cálice de vinho do Porto. Bianca percebia finalmente que a sua paixão era unilateral, que Baltazar não só nunca a amara como dificilmente faria a mínima ideia do que pudesse ser isso do amor. O amor que Bianca sentia por Baltazar resultava da necessidade que tinha de ser amada, finalmente reconhecia perante si própria essa evidência. Não perderia nem mais um grama por Baltazar, esse traste pouco mais que nada indeciso entre charros de hidroerva e benzodiazepinas. <a href="http://www.oindesmentivel.com/wp-content/uploads/2009/07/cartao-cidade.gif" rel="lightbox[10752]"><img class="alignleft size-full wp-image-3206" title="Cidade a Tossir" src="http://www.oindesmentivel.com/wp-content/uploads/2009/07/cartao-cidade.gif" alt="cartao cidade O CICLO DO AMOR" width="300" height="258" /></a>Ela sabia tudo o que havia a saber sobre o amor. Já havia lido muito sobre o assunto nos livros do Dr. Joseph Murphy, do Dr. Brian Weiss, do Dr. David Posen, do Dr. Phill McGraw, do Dr. Wayne Dyer. Sabia que o maior problema das relações amorosas é a ausência de uma crise. No início, quando a paixão entra em erupção, é tudo uma alegria, dos corpos irrompem chamas que acaloram corações gélidos. Por vezes chegam mesmo a esquentar outras partes do corpo, o que não convém. Mas logo a alegria encontra abrigo debaixo dos pequenos defeitos, pormenores de carácter, rugas, cicatrizes, pontos negros, pequeníssimas imperfeições do corpo que acalmam o vulcão. Então instala-se a rotina, a monotonia ganha terreno, da alegria faz-se um hábito e do hábito nasce o tédio. Com o passar dos anos, os amantes começam a sentir a secura do tédio. As secas pedem tempestades, exigem tempestades, procuram tempestades. Tempestades que voltem a agitar as águas, uma crise que volte a provocar erupções vulcânicas. Depois, das duas uma: ou o casal se reencontra e supera a tempestade ou naufraga impelindo os amantes para ilhas separadas onde poderão recomeçar as suas vidas. Quase sempre com novos amores que gerarão novos vulcões dos quais nascerão novos desertos que pedirão novas tempestades que darão noutros naufrágios que levarão a mais ilhas desertas e assim sucessivamente. É este o ciclo do amor, Bianca sabia-o, lera-o nos livros, de alguma forma o experimentara. Portanto, havia agora que optar pelo pragmatismo de Richard Rorty, pelo utilitarismo de John Stuart Mill ou pela terceira via de Anthony Giddens. Eram essas as opções, seria esse o caminho. No entanto, sabe o leitor tão bem quanto o narrador que na prática nunca a vida é como se mostra em teoria. A gente põe-se a pensar nos factos, joga com eles o xadrez das possibilidades, vem uma inesperada rabanada de vento e ficamos com as jogadas todas baralhadas. Foi o que sucedeu.</p>
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		<title>UM PROJECTO</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Nov 2010 08:00:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge André Catarino</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Suplemento]]></category>

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		<description><![CDATA[Naquele momento as pernas de Bianca fraquejaram. Pensou que talvez fosse melhor sentar-se. Sentiu um desfalecimento que a desequilibrou. Acabou por se aguentar de pé, voltou-se lentamente e, arrastando os pés, regressou à companhia dos gatos no rés-do-chão. Quem a visse nem podia acreditar, a confiança inculcada naquela criatura pelos livros de auto-ajuda tinha sumido [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Naquele momento as pernas de Bianca fraquejaram. Pensou que talvez fosse melhor sentar-se. Sentiu um desfalecimento que a desequilibrou. Acabou por se aguentar de pé, voltou-se lentamente e, arrastando os pés, regressou à companhia dos gatos no rés-do-chão. Quem a visse nem podia acreditar, a confiança inculcada naquela criatura pelos livros de auto-ajuda tinha sumido por detrás de um véu de desencanto e melancolia. Nada a consolava, nada a animava, nem mil gruas de positividade conseguiriam levantá-la um centímetro que fosse acima do pessimismo em que mergulhara. Até que um dos gatos persas miou despertando os restantes da letargia em que se achavam. Depois miaram todos em uníssono. Um deles chegou mesmo a engasgar-se. Em vez de miar parecia que uivava. Este extraordinário efeito retemperou Bianca que, ainda um pouco estremunhada, decidiu despejar toda a sua angústia a escrever: «Sempre pensei <a href="http://www.oindesmentivel.com/wp-content/uploads/2009/07/cartao-cidade.gif" rel="lightbox[10685]"><img class="alignleft size-full wp-image-3206" title="Cidade a Tossir" src="http://www.oindesmentivel.com/wp-content/uploads/2009/07/cartao-cidade.gif" alt="cartao cidade UM PROJECTO" width="300" height="258" /></a>que se algum dia me suicidasse, o faria lenta e respeitosamente. Às vezes julgo que a minha vida não é outra coisa senão um suicídio lento e respeitoso. Sei de gente que se matou de uma só vez. Eu mato-me aos poucos, como um caracol que investe a vida inteira a chegar ao topo do arranha-céus de onde pretende saltar para a morte. As nuvens marcham sem comando e o meu coração palpita. O mundo está cheio de chatos que vivem na casquilha dos tomates atirados à cara de um mau actor. Saltam, pulam, escorregam, assentam praça no Parque das Merendas, suspiram. São chatos. Calhou que me apaixonasse por um deles. Sei que nada tenho de invejável, mas todos os santos dias sinto que me invejam. Invejam-me o peso das circunstâncias, esta coisa de não ser amada ao perto porque o meu amante é a modos que míope. Por vezes afasto-me, fico à coca, olho por cima dos ombros os calcanhares de Aquiles do meu amor. Sinto-me uma vaca parideira de meninos a desnascer. Não sei o que quero dizer com isto, mas tenho uma certa vaidade nesse desconhecimento. É verdade que atravesso um mau momento, quem me vir julgar-me-á deprimida. Mas o que é isso num país onde as pessoas em vez de bilhetes de identidade usam bilhetes de crise? Cada qual é já só a crise que sustenta, porque, na realidade, as pessoas adoram estar em crise, anseiam por uma crise. Tanto assim é que ainda no outro dia vi este anúncio no jornal: em 24 horas, salvo ruptura de stock, levamos-lhe uma crise a casa; por pouco mais que nada, incluindo portes de envio. A crise é omnipresente, omnisciente, omnipotente. Nós só existimos para resolvê-la, sabendo de antemão que tê-la resolvida é quedarmos mortos. De pequenos feiticeiros com soluções mágicas e desfechos miraculosos, está o Inferno cheio. Não quero tirar o pulso às palavras, prefiro que elas sucumbam de uma vez por todas com um enfarte do miocárdio. Escrever disparates é como arrancar um dente podre, fica-se com a boca mais limpa. E eu não quero ser como a mulher sóbria que morreu cheia de saúde, nem como o vegetariano que se devorou a si próprio depois de ter ficado em estado vegetal, muito menos como o coveiro que mijava para dentro das covas dizendo que pretendia sarar as feridas dos mortos. Eu tenho um projecto…» E nisto, o telefone tocou. Era Baltazar dando conta da mais importante das decisões que alguma vez tomara na vida: ia trocar os charros de hidroerva por benzodiazepinas.</p>
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		<title>A MANCHA</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Oct 2010 07:00:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Tiago DaCunha Caetano</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O pombo Benjamim foi insistindo nas mensagens de amor sem obter qualquer resultado. Baltazar nem por sombras imaginava que o pombo andava a fazer-se passar por ele, enviando mensagens de amor à vizinha do rés-do-chão. Já Bianca defumava os dias com as mensagens de amor que lhe apareciam por todos os lados e de várias [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O pombo Benjamim foi insistindo nas mensagens de amor sem obter qualquer resultado. Baltazar nem por sombras imaginava que o pombo andava a fazer-se passar por ele, enviando mensagens de amor à vizinha do rés-do-chão. Já Bianca defumava os dias com as mensagens de amor que lhe apareciam por todos os lados e de várias maneiras. Os gatos persas permaneciam hirtos e eriçados, em posição depredatória, junto à janela de casa. Olhavam para o cimo do prédio à espera que algum pombo voltasse a aproximar-se do seu território. Bianca deixara de responder às mensagens. Depois da situação embaraçosa por que passara em casa de Baltazar, resolvera fingir uma indiferença que definitivamente não sentia. Estava convencida de que Baltazar cederia à sua indiferença, mas Baltazar era a indiferença em pessoa. Dele só podíamos esperar um apático, monótono, entediante, indolente e imperturbável desinteresse. Desesperado, o pombo Benjamim voltou a descompensar, iniciou um processo vertiginoso de despersonalização que o levou de um estado esquizóide a uma personalidade paranóide-compulsiva com obsessões de acentuada postura anti-social. Baltazar não queria acreditar no que ouvia, mas o pombo Benjamim começara a miar como os gatos persas da vizinha do rés-do-chão. <a href="http://www.oindesmentivel.com/wp-content/uploads/2009/07/cartao-cidade.gif" rel="lightbox[10571]"><img class="alignleft size-full wp-image-3206" title="Cidade a Tossir" src="http://www.oindesmentivel.com/wp-content/uploads/2009/07/cartao-cidade.gif" alt="cartao cidade A MANCHA" width="300" height="258" /></a>Baltazar procurou na Internet possíveis explicações para o sucedido. Não foi difícil determinar um diagnóstico: despersonalização específica com fixações atípicas de segunda instância paranóica. Benjamim estava apanhadinho por uma doença-sinal-dos-tempos. O problema era a terapia a aplicar em casos que tais. Quanto a isso, nada a fazer. Dar tempo ao tempo, boa alimentação, poleiro higienizado e penugem tratada. Não obstante a deferência dos tratamentos, certa noite mal dormida o pombo sonhou com um ataque aos persas. Na realidade, não sonhou. Num acesso de sonambulismo voou sobre o inimigo desamarrando toneladas de poia tóxica sobre os gatos. No dia seguinte, Bianca estava novamente em casa de Baltazar. Falava pelos cotovelos, gesticulava, insurgia-se contra o pombal, que era porcaria por todo o lado, ralhava, gritava de braços levantados, andava de um lado para o outro arrastando consigo toneladas de pó. Baltazar reparou então numa mancha na parte de trás da saia de Bianca, como se esta se tivesse peidado e largado um pouco de molho. E tinha. Na agitação, sem que desse por isso, largara uma bufa húmida que se espalhara pelas badanas do mastodôntico cu e repassara o tecido das cuecas e da saia ficando à vista de todos. Baltazar fixou-se na mancha, estava hipnotizado, Bianca bem podia continuar a palrar, ralhar, gritar que ele só lhe via uma mancha de caca na parte de trás da saia. Subitamente ela parou de falar e estacionou de braços abertos, ligeiramente inclinada sobre Baltazar, numa postura expectante e ameaçadora, diríamos mesmo triunfal, de olhos arregalados afixados aos do seu passivo interlocutor. Fez-se um breve e incomodativo silêncio, interrompido quando Baltazar, num tom algo engasgado, sorriu ligeiramente para Bianca e disse: tens uma mancha de cocó no cu.</p>
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