- Sábado, Outubro 16, 2010, 16:50
- Cidade a Tossir
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Dizem que esta característica das cidades que tossem tem a sua origem, lá está, nos tempos que correm, na tal lei dos mercados que tudo explica e tudo agrava e nada resolve. Mas há quem vá mais longe: antes dos tempos que correm outros tempos correram, tudo o que corre no tempo presente vem de ter corrido no tempo passado e, se não nos enganamos ...
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- Sábado, Outubro 9, 2010, 13:31
- Cidade a Tossir
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Quando uma cidade tosse, tossem logo duas ou três. Há certas cidades que, pela sua dimensão e influência, quando tossem provocam graves pneumonias noutras cidades mais pequenas. É a denominada lei dos mercados. A lei dos mercados não tem a fundamentá-la quaisquer critérios científicos. Não é uma lei objectiva, resultado de investigações especulativas. É uma lei que o cidadão aceita sem questionar. Daí que seja ...
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- Sábado, Outubro 2, 2010, 15:00
- Cidade a Tossir
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Até que um dia o pombo Benjamim resolveu transcender-se. Bianca andava afogueada com as mensagens de amor secretas, mensagens que ela julgava vindas de Baltazar. Mas Baltazar ignorava tudo o que se passava, permanecia amorfo, um pouco mais que nada, inútil e indiferentemente inapto e inactivo. Só se erguia do sofá para tratar dos pombos. Então, seu pombo predilecto teve uma ideia. Certa noite, voou ...
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- Terça-feira, Setembro 28, 2010, 8:00
- Cidade a Tossir
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Bianca lia as sucessivas mensagens de amor que lhe iam chegando como se estivesse a ler o Tratado Lógico-Filosófico de Ludwig Wittgenstein. Tudo aquilo lhe fazia muito sentido, embora lhe parecesse inconsequente. Convencida de que era Baltazar quem lhe escrevia as declarações de amor, perguntava-se por que não se declararia ele a descoberto. Afinal viviam no mesmo prédio, conheciam-se, já tinham estado enrolados. O que ...
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- Segunda-feira, Setembro 6, 2010, 19:24
- Cidade a Tossir
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Tudo na mesma, um dia como os outros, vamos indo, haja saúde, cá vamos, tudo bem, vai-se andando. Impunham-se decisões. Baltazar decidiu esperar que Bianca se decidisse. Bianca decidiu o mesmo. Não que ela própria se decidisse, mas que Baltazar tomasse a iniciativa. As mulheres são todas assim, a única iniciativa que podemos esperar delas é que esperem que sejam os homens a tomar a ...
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- Sábado, Agosto 28, 2010, 8:00
- Cidade a Tossir
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Depois de ter vomitado os biscoitos que Bianca lhe fizera, Baltazar concluiu que não podia deitar-se de estômago vazio. Cozinhou uma omeleta com linguiça, degustou-a e estendeu-se na cama. Passou muito mal durante a noite. Ou porque a linguiça não era das melhores, ou porque os ovos estavam estragados, sofreu uma crise de azia que apenas teve solução com mais uma ida à casa de ...
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- Domingo, Agosto 22, 2010, 8:00
- Cidade a Tossir
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Eram imensas as expectativas que tomavam conta do pombo Benjamim no regresso a casa. Como estaria Baltazar? E Bianca? E os gatos persas? Rapidamente se apercebeu de que estavam exactamente na mesma. Após tamanha odisseia, nem um pêlo tinha nascido na barba nazarena de Baltazar. Nada havia mudado. É verdade que Baltazar resolvera abrir-se, isto é, declarar-se a Bianca, pôr tudo em pratos limpos, falar-lhe ...
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- Domingo, Agosto 1, 2010, 8:00
- Cidade a Tossir
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Sem resposta para mais perguntas, atolado sob cada vez mais dúvidas, sem certezas que não fossem um imenso e inexorável cansaço, o pombo Benjamim disse de si para si: se um homem precisa de assentar, mais ainda um pombo. Vou regressar. E foi isso que fez. No regresso, reviu tudo o que havia visto, mas com os olhos de quem já nada vê pela primeira ...
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- Domingo, Julho 25, 2010, 14:11
- Cidade a Tossir
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Porque quando partiram, as coisas estavam bem melhores. Basta pensarmos nas casas dos homens. Não tinham máquina de café, microondas, a roupa e a louça lavavam-se à mão. As mãos ficavam um pouco encardidas, é certo, mas estimulava-se a indústria do sabão azul, das pomadas e dos cremes. Não havia computadores, esse demónio que veio fazer da televisão um ingénuo energúmeno. Não havia televisão, leitor ...
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- Sábado, Julho 17, 2010, 11:09
- Cidade a Tossir
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No meio de todo este cenário catastrófico, em que uns roubam com uma mão o que dão com a outra, outros devoram as mãos à procura dos anéis que já não têm nos dedos, e ainda outros se sitiam entre poderosas muralhas fazendo crer que estão preocupados com o que se passa para lá dos seus bolsos, no meio de todo este cenário, pensou o ...
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