Arquivo de ‘Cidade a Tossir’

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O PIQUENIQUE

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Assim que se libertou da nuvem escuríssima onde Deus Nosso Senhor chorava como uma criança perdida, o pombo Benjamim pousou num ramo da primeira árvore que viu. Deixa-me cá repousar nesta árvore, disse de si para si. Mas o repouso foi-lhe prontamente interrompido. À sombra da árvore, estavam em amena cavaqueira o doutor Pangloss, Cândido e o chefe índio Geronimo. À volta deles, dançavam as ... Ler tudo
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O DEUS DOS HOMENS

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Ainda mal refeito das elucubrações espíritas, Benjamim deu consigo a penetrar uma nuvem escuríssima. Não via uma unha à frente dos olhos. Tê-los ou não era indiferente, pois a nuvem cegara-o. Era como se Deus tivesse apagado a luz do mundo, ou como se o mundo tivesse sido assaltado por uma cegueira epidémica. Mal por mal, manteve os olhos abertos na esperança de enxergar alguma ... Ler tudo
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O HOMEM QUE FALAVA COM OS MORTOS

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No exacto instante em que o pombo Benjamim abandonava a Rua dos Poetas, São Pedro abriu as portas do céu e deixou cair sobre a terra uma chuva copiosa. Benjamim procurou refugiar-se debaixo de um toldo vermelho que vira logo ali ao lado, mas como o toldo estava todo esburacado bateu as asas na direcção de uma janela iluminada. Aí se abeirou. Olhou pela janela ... Ler tudo
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RUA DOS POETAS (2)

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Mas ganhou coragem e prossegui, olhando de viés Unica Zürn, enquanto esta saltava da janela do apartamento que partilhava com Hans Bellmer. Caiu em cima de um mendigo chamado Sebastião Alba. Mais à frente, Maria Ângela Alvim punha fim à doença dos nervos e Anne Sexton fechava-se na garagem de casa, com o motor do carro ligado, inspirando monóxido de carbono até a asfixia lhe ... Ler tudo
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A RUA DOS POETAS (1)

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E então Benjamim entrou da Rua dos Poetas. Era uma rua com as fachadas todas limpas, embelezada por metafóricos arranjos florais. Quem ali entrasse, dificilmente imaginaria o inferno com que se deparou Benjamim. Sentado num banco de madeira, Antero de Quental matava-se com um tiro na cabeça ao lado da casa onde Emilio Salgari cometia harakiri depois de ter perdido o seu amor. De cadeira ... Ler tudo
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DLIM-DLÃO

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Dlim-dlão, dlim-dlão, tocou o sino na igreja. Benjamim, como que atraído pela flauta mágica, pousou na torre e mirou a paisagem. Filas intermináveis de criancinhas entravam na santa casa, uns cabisbaixos, outros esfuziantes. Dali saíam, lentamente, um a um. Os que haviam entrado cabisbaixos saíam contraídos, os que haviam entrado esfuziantes saíam cabisbaixos. Como se os primeiros já soubessem ao que iam e os segundos ... Ler tudo
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UM JANTAR SNOB

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Enquanto voava a esmo, Benjamim avistou uma janela aberta e resolveu parar um pouco. A janela dava para uma sala com uma mesa comprida onde repastavam várias criaturas com tiques de indisfarçável snobeira. De quando em vez, colocavam a mão debaixo do queixo, muito ao estilo da intelligentzia que escreve colunas de opinião nos jornais. Benjamim perguntava-se sobre o porquê daquele gesto, ao mesmo tempo ... Ler tudo
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CIGANOS

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O nosso campeão da orientação andava à deriva. Pousou o cansaço num edifício marmóreo. E enquanto recuperava fôlego, viu passar uma carroça com ciganos. Pensou que também ele era um pouco cigano. Por onde passava, deixava tudo cagado. Só não era tão aldrabão. Em boa verdade, já nem os ciganos eram aldrabões como os ciganos. Merecem todo o nosso respeito. ... Ler tudo
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O POVO

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Visto cá de cima, o povo não parece nada sereno. Formiguinhas encarneiradas, ou coisa que o valha, andando de cá para lá até que a morte os sobressalte. Interrogo-me sobre o porquê de tanta agitação? O povo julga que tem algo a dizer, que é preciso marcar, definir, reivindicar o seu território. O povo julga. E julga-se para lá do povo que é. Ninguém necessita ... Ler tudo
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TEMPESTADE

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Dito isto, Benjamim levantou voo. Quem sou eu no meio disto tudo? – questionava-se o pombo, quando uma ventania danada o empurrou aos trambolhões para o tecto do mundo. Benjamim fora apanhado por uma cornucópia de vento. Sugado aos esses, estonteou mais ainda do que já estonteado voejava. Penetrou uma nuvem escuríssima, uma nuvem gorda de trovões e de granizo, pronta a rebentar um oceano ... Ler tudo
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