AGENTE DUPLO
- Sábado, Julho 3, 2010, 8:00
- Cidade a Tossir
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Mas nesta história não entram santos. Entram anarquistas moles e gelatinosos, poetas benquistos, políticos indolentes, multidões apressadas, desatentas, desinteressadas, punks de marca, artistas sem causa, causas sem artistas, cineastas desportivos, fazedores de opinião, doxa dixit, o decadentismo da mão apertada, abraços à superfície do rosto, ressabiados de cara tapada, cobardes, cães desdentados, gatos desgarrados, voos de asa quebrada, padres hipócritas, cínicos, pedófilos, uma Igreja da polifonia acobardada, militares com o rabinho entre as pernas, 50 anos de subjugação ditatorial, a tirania do progresso, do sucesso, a tirania democrática do povo sereno, a tirania da serenidade e da tolerância, a tolerância selectiva, uma aldeia de obesos a pesar sobre um continente de esfomeados, um passo para a paz, três passos para a guerra, poetas patetas, pernetas, manetas, obcecados, obsessivos, uma beleza suicidária, o consumismo autofágico das urbes, oligarquias dissimuladas de democracia, um carnaval deprimente de autores desconsiderados, agentes duplos.
Há pessoas que fazem de tudo para que não gostemos delas, pensou o pombo Benjamim. Limpam o cu com a mão para onde cospem, mijam contra o vento, andam ao pé-coxinho. Perante a nossa indiferença, entram em desespero, ficam obsessivas e explodem de raiva. A bílis durante anos segregada em desesperado silêncio salta-lhes por todos os orifícios. Transpiram bílis, vomitam bílis, bufam bílis. Metem-se a maldizer pela calada, olham de soslaio os hipotéticos inimigos, transformam-se em cobardes intriguistas que estimam ódios na ausência do contraditório. Mas piores que esses galos depenados, são as baratas tontas que se alojam debaixo das asas dos galos ou à sombra da penugem, aguardando o ovo que não vem, porque os galos só cantam, e o voo que não vai, porque os galos só cantam. São os agentes duplos. O agente duplo é aquele que fica sempre por fazer o que devia ter feito. Traz-nos notícias do alheio enquanto espera o nosso reconhecimento. Diz-nos que ouviu isto e aquilo, ressalvando a sua invejável paciência: ainda estive para responder, mas não quis sarilhos; ainda estive para lutar, mas não estive para me chatear. O agente duplo é prudente e calculista, mas não entende a mais básica regra da cumplicidade: com a porcaria é-se intransigente.










