AGENTE DUPLO

Mas nesta história não entram santos. Entram anarquistas moles e gelatinosos, poetas benquistos, políticos indolentes, multidões apressadas, desatentas, desinteressadas, punks de marca, artistas sem causa, causas sem artistas, cineastas desportivos, fazedores de opinião, doxa dixit, o decadentismo da mão apertada, abraços à superfície do rosto, ressabiados de cara tapada, cobardes, cães desdentados, gatos desgarrados, voos de asa quebrada, padres hipócritas, cínicos, pedófilos, uma Igreja da polifonia acobardada, militares com o rabinho entre as pernas, 50 anos de subjugação ditatorial, a tirania do progresso, do sucesso, a tirania democrática do povo sereno, a tirania da serenidade e da tolerância, a tolerância selectiva, uma aldeia de obesos a pesar sobre um continente de esfomeados, um passo para a paz, três passos para a guerra, poetas patetas, pernetas, manetas, obcecados, obsessivos, uma beleza suicidária, o consumismo autofágico das urbes, oligarquias dissimuladas de democracia, um carnaval deprimente de autores desconsiderados, agentes duplos. cartao cidade AGENTE DUPLO Há pessoas que fazem de tudo para que não gostemos delas, pensou o pombo Benjamim. Limpam o cu com a mão para onde cospem, mijam contra o vento, andam ao pé-coxinho. Perante a nossa indiferença, entram em desespero, ficam obsessivas e explodem de raiva. A bílis durante anos segregada em desesperado silêncio salta-lhes por todos os orifícios. Transpiram bílis, vomitam bílis, bufam bílis. Metem-se a maldizer pela calada, olham de soslaio os hipotéticos inimigos, transformam-se em cobardes intriguistas que estimam ódios na ausência do contraditório. Mas piores que esses galos depenados, são as baratas tontas que se alojam debaixo das asas dos galos ou à sombra da penugem, aguardando o ovo que não vem, porque os galos só cantam, e o voo que não vai, porque os galos só cantam. São os agentes duplos. O agente duplo é aquele que fica sempre por fazer o que devia ter feito. Traz-nos notícias do alheio enquanto espera o nosso reconhecimento. Diz-nos que ouviu isto e aquilo, ressalvando a sua invejável paciência: ainda estive para responder, mas não quis sarilhos; ainda estive para lutar, mas não estive para me chatear. O agente duplo é prudente e calculista, mas não entende a mais básica regra da cumplicidade: com a porcaria é-se intransigente.

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