De como a vida era melhor antes de terem inventado a filosofia

Terminada a leitura de “Os Primeiros Filósofos”, Baltazar pousou o volume sobre o abdómen e pensou: a vida devia ser muito melhor antes destes tipos terem inventado a filosofia. Tales de Mileto caiu para dentro de um poço enquanto contemplava os astros, os pitagóricos não comiam carne por recearem a ingestão de um parente reincarnado num animal, Heraclito julgava Pitágoras o rei dos tagarelas, mas, segundo Diógenes Laércio, ter-se-á fechado num estábulo para que o calor do estrume lhe curasse a hidropisia, Empédocles mergulhou na cratera do Etna com o objectivo de se purificar no fogo, Zenão de cartao cidade De como a vida era melhor antes de terem inventado a filosofiaCicio estrangulou-se depois de ter visto num dedo partido um indício apocalíptico, Cleanto era tão pobre que escrevia em omoplatas de boi os ditos do mestre, recusou voltar a comer após a contracção de um tumor numa gengiva, Crisipo rebentou de riso ao ver um burro a comer figos… Enfim, uma panóplia de vidas abastardadas pela entrega ao pensamento que encontravam na morte de Séneca o exemplo máximo da desgraça. Conta Tácito que, obrigado a suicidar-se, o vegetariano começou por cortar as artérias dos braços. Porque o sangue não escoava devido à fraqueza do físico, Séneca pediu que lhe ceifassem igualmente as artérias das coxas e dos cotovelos. Tardando o fim, o filósofo resolveu ingerir uma taça de veneno meticulosamente preparada pelo camarada Statius Anneus. Nem com as artérias desfiadas, nem com o veneno, quis o corpo de Séneca algum trato com a morte. Lançou-se então num banho cálido e, seguidamente, fez-se transportar para uma estufa, acabando por esticar o pernil asfixiado pelo vapor. Dizem que teve uma morte digna… de herói. Baltazar pensava nestes heroísmos com alguma circunspecção. Que haveria de heróico em antecipar o inevitável, em crer no inacreditável e entregar a razão aos acidentes? Ociosos em vida, estes homens teriam sido apenas empenhados na precipitação da desgraça. E pese embora as vidas azaradas que nos haviam deixado de herança, o pior estaria para vir sob a forma calamitosa daquilo a que um poeta engenhoso de ombros largos veio a chamar de ideias.

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2 Comentários em “De como a vida era melhor antes de terem inventado a filosofia”

  • maria joão escreveu em 25 Julho, 2009, 15:55

    :) )))) puxa! que requinte

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  • Tiago escreveu em 25 Julho, 2009, 19:58

    Requinte, que por sinal é também um motel na linha de Sintra. Obrigado pelo incentivo :)

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