É PRECISO FAZER PELA VIDA

Baltazar tinha uma ideia: um homem tem de fazer pela vida. Ponto final pouco mais que inútil, os dias passavam por Baltazar tanto quanto ele passava pelos dias. Fazendo pela vida. Fumava charros de hidroerva descontinuamente. Sabia de cor as músicas dos The Doors, vivia para dormir acordado sobre o sono e para ressonar adormecido sobre a lucidez. Só punha os pés fora de casa para responder a anúncios de precariedade. Comparecia às entrevistas esmagado pela quietude de quem não tem respostas, acalentando a esperança de um emprego que nunca vinha. Não preenche os requisitos necessários, diziam-lhe reiteradamente. Aquelas palavras ecoavam dentro da sua ambição como um eco pardacento. Baltazar cartao cidade É PRECISO FAZER PELA VIDA carregava no nome o seu próprio destino, embora o azar lhe servisse tanto de desculpa como de consolo. Se o trabalho não queria nada com ele, ele mesmo não pretendia nada com o trabalho. Fazia pela vida. Criava pombos-correio num pequeno quintal, para depois vendê-los bem ensinados. De tão meticulosamente treinadas, as aves regressavam ao antigo pombal à primeira oportunidade. A estratégia permitia a Baltazar vender repetidamente os mesmos pombos. E deste fiel carácter aviário sobrevivia o nosso herói. Membro interino da Federação Internacional de Columbofilia, tinha por ligeira ambição vencer as Olimpíadas de pombos-correio com o seu predilecto Benjamim. Fique desde já assente que tal desejo nunca veio a concretizar-se. O predilecto, como qualquer domesticado que se preze, adquirira com o tempo algumas das características do dono. Medalhas não eram com ele. Limitava-se a fazer pela vida, tentando compreender problemas fundamentais da humanidade tais como por que razões andavam os homens há séculos a patinar em questões existenciais sem necessidade ou proveito. Benjamim sabia que vinha de um ovo e isso bastava-lhe. Que viesse a escapar à guilhotina, seguida de depenação e fervura, era mais que suficiente para que se sentisse realizado. Mas na cabeça de Baltazar a teoria do ovo não passava de uma base hipotética para a construção de um sistema lógico acerca da criação do mundo.

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