EM BUSCA DO TESOURO PERDIDO

Os pesadelos são um modo do corpo disciplinar a insónia. Por vezes, deixam-nos cansados; outras vezes, são um descanso. Por exemplo, quando acordamos e constatamos que eram apenas pesadelos. Mas depois abrimos a pestana, olhamos em redor, e tudo parece tão confuso como quando estávamos de olhos cerrados. Subitamente Leonard Cohen transforma-se em Mafalda Veiga, o Tarzan não existe e o chão está coberto por uma alcatifa empoeirada. Tudo é possível num pesadelo, até um pássaro numa gaiola se confundir com bandos de asas soltas. Digamos que os pesadelos são a realidade concreta na periferia da lógica, são como votar de quatro em quatro anos. Dizem que votar é depositar a esperança, mas na verdade votar é como ir a um funeral. Ou julga o €leitor que foi por acaso que chamaram urna ao caixote onde depositamos o boletim de voto? E que outro acto social exige a mesma solenidade, a mesma circunspecção, o mesmo respeito, o mesmo silêncio que um funeral exige? Só mesmo o acto de votar. Um dia de meditação? Não, meus caros. O velório da nossa esperança. Mas não contornemos o obstáculo. Não há cura para o pesadelo, não há fuga possível. cartao cidade EM BUSCA DO TESOURO PERDIDOO pesadelo é o estado de espírito de quem dorme acordado, de quem vigila adormecido. Pensemos, porém, nos intervalos da comédia. Estamos vivos. Estamos mesmo. Reparem bem, belisquem os cotovelos, mordam a língua, escarafunchem as unhas dos pés: estamos vivos. Contudo, dentro em breve estaremos mortos. Não é irónico? Sempre que defendemos uma vida estamos a defender mais uma morte, sempre que nos queixamos do azar é porque ainda temos alguma sorte: podemos ir dando corda ao queixume. Urge medir o pulso à dor, dobrar os rebordos da página em branco, fazer as barbas ao Aquiles, ler Epicuro. Quando levamos o calcanhar ao barbeiro, sabemos que a barba voltará a crescer. Mas nem por isso deixamos de levar o calcanhar ao barbeiro. Caso contrário, suicidamo-nos, abrigamo-nos nos toldos da morte lenta, tombamos para o lado da inércia, fazemos-lhe alguns filhinhos, unidos na vida, na morte e no ressentimento. Melhor será, então, que acendamos as luzes e partamos à descoberta dos tesouros que andam por aí escondidos nas florestas de cimento. Baltazar tinha os seus tesouros: o pombo Benjamim era um deles. Quando for grande, dizia Baltazar, quero ser como o Tarzan. Para quê? – perguntava-lhe o pombo. Para me atirar da Ponte 25 de Abril.

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