ESTADO DA NAÇÃO
- Sábado, Julho 17, 2010, 11:09
- Cidade a Tossir
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No meio de todo este cenário catastrófico, em que uns roubam com uma mão o que dão com a outra, outros devoram as mãos à procura dos anéis que já não têm nos dedos, e ainda outros se sitiam entre poderosas muralhas fazendo crer que estão preocupados com o que se passa para lá dos seus bolsos, no meio de todo este cenário, pensou o pombo Benjamim, o mais extraordinário é como é que eu ainda estou vivo. É-me hoje óbvio que o argumento desenvolvido por Voltaire é um argumento demasiado fácil para ser levado a sério. Ser alguém educado a pensar que vive no melhor dos mundos possíveis não é nada de improvável, apesar de desde muito cedo ameaçarmos as crias com papões, monstros, bruxas, polícias e ciganos. Antes as ameaçássemos com a racionalidade dos mercados e com as políticas de contenção. Sejamos exigentes com a estirpe humana. Imaginemos alguém educado na crença de que vivemos no pior dos mundos possíveis.
O que sentiria uma pessoa dessas quando saísse da sua caverna e se deparasse com o mundo tal como ele é? Não vivemos no melhor nem no pior dos mundos possíveis, mas alguém que tenha sido educado a acreditar que o seu é o pior dos mundos possíveis só poderá morrer de tédio quando se der conta que está vivo e de que há mais mundo para lá dos seus défices particulares. Pois que andar à deriva pelo mundo faz-nos perceber o quanto este se presta à corrupção, aos negócios sombrios, a desfechos sanguinários. Voamos uma jarda para lá das muralhas do nosso pombal, e não nos faltarão histórias tocadas com a surdina do medo, mergulhadas num lodaçal de práticas maquiavélicas para as quais é preciso ter estômago de pombo. A ganância dos homens é como a nossa merda: faz estragos imprevisíveis. Homens que matam as suas mulheres, mulheres que se vingam dos seus maridos, incêndios ateados pela chama irreflectida da ambição, do ciúme e da inveja. No fundo, sexo, drogas e rock ‘n’ roll sob o tecto sagrado do deus dinheiro. A gente pensa que é só nos filmes, nas séries, matéria para narrativas, ficções, mas essa matéria tem os seus vulcões. E esses são tão reais como estarmos agora, aqui mesmo, distraídos da sorte que temos em ainda estarmos vivos no meio de todo este cenário. Os homens gostam de acreditar que vivem no pior dos mundos possíveis. Esse tipo de fé como que lhes justifica toda a porcaria que fazem, ao mesmo tempo que apontam a nossa merda como se ela fosse a maior das tragédias nas suas miseráveis vidas. Afinal nós somos o que de mais cómico há na vida dos homens. Eles é que nos destroem os ninhos, os beirais, mas nós é que somos os culpados do estado a que as coisas chegaram. E o estado a que as coisas chegaram é lastimável, sobretudo se pensarmos no estado em que partiram.










