FEIRA DO LIVRO
- Sábado, Maio 15, 2010, 8:00
- Cidade a Tossir
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Benjamim não abandonou o museu sem deixar a sua marca, à laia de dripping, numa das telas monocromáticas de Fontana. Durante largos anos ninguém notou na transformação operada sobre a obra do pintor argentino. Alguns críticos chegaram mesmo a falar de um Pollock em registo minimalista, até ter havido alguém cuja interrogação – mas que merda é esta? – pôs termo ao equívoco. Saído daquele cemitério recreativo, Benjamim deu largas ao voo
passeando-se sobre os stands enfileirados de uma feira do livro. Era impressionante a quantidade de gente que por ali se encontrava, sobretudo escritores a comprarem os livros de outros escritores. Alguns, os mais comercialmente relevantes, davam autógrafos. Formavam-se filas de gente que aguardava uma assinatura do seu escritor preferido, ou do escritor que por mero acaso ali se encontrava a dar autógrafos, e que por ali estar inspirara subitamente nas pessoas que passavam o desejo de adquirir aquele livro. E as pessoas que passavam, na sua maioria escritores menos comercialmente relevantes ou sem relevo algum, adquiriam o livro, metiam-se na fila, por vezes chegavam a bater palmas a cada autógrafo rabiscado na primeira página da obra. Os autores assinavam: para o meu grande amigo… Aqui chegados, faziam uma pausa, olhavam o solicitador de baixo para cima, esperavam que ele dissesse um nome. Se o não dissesse, perguntavam: como é que o senhor se chama? E então o escritor era lembrado do nome do seu grande amigo. O grande amigo levava o livro para casa. Feliz da vida, arrumava-o na estante doméstica que lhe garantia o estatuto de pessoa culta. Mostrava o objecto às visitas como quem mostra uma medalha de mérito, e dizia, o meu grande amigo fez questão de me dedicar esta sua obra. O meu grande amigo. Benjamim topou logo o filme. Não era preciso ir ao cinema para perceber que naquela feira o que estava em jogo era a vaidade que oleia o mundo dos humanos.
– Olá, estás bom, ainda te lembras de mim? – perguntava o grande amigo ao escritor que se preparava para a palestra da tarde.
– Sim, claro, da faculdade, certo? – respondia-lhe o escritor.
– Na verdade, sou o grande amigo. Convidaste-me uma vez para um programa teu.
– Ah, pois, desculpa – respondia o escritor, que também era jornalista – digo sempre isto da faculdade quando não reconheço um rosto à primeira. Mas estás bem, pá, nem mais gordo, nem mais magro, na mesma.
– Aposto que também dizes sempre isso a toda a gente. Deves ter muitos grandes amigos.
Depois riam-se ambos, cada um ia à sua vida, grandes amigos que muito provavelmente jamais se voltariam a ver. E eis outro fenómeno facilmente constatável naquela feira: eram tantos, mas tantos, os escritores jornalistas nos escaparates, que se tornava difícil de entender a quem ainda restava tempo para fazer algum jornalismo.










