FESTIVAL DE VERÃO
- Domingo, Maio 23, 2010, 22:00
- Cidade a Tossir
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Benjamim avistou uma explosão de luzes e de sons. Não sabia o que poderia ser. À medida que se aproximou, os sons chegaram-lhe mais intensos, com tanta energia que lhe empurravam o voo para trás. Mas o pombo era teimoso, voou contra a corrente, isto é, contra uma chinfrineira sem explicação. Voando de baixo para cima, perfazendo uma curva ascendente na direcção do céu, chegou ao alto de uma colina, olhou para baixo e viu uma nave espacial estacionada no baixo-ventre da colina.
Uma nave espacial cortada ao meio como uma melancia oca, assaltada por umas criaturas que pareciam pulgas saltitantes. No interior da melancia oca, as pulgas saltitantes mostravam-se deveras entusiasmadas com a chinfrineira que produziam. Agarrados aos seus instrumentos como a armas de tortura, a missão das pulgas saltitantes consistia em arrasar o maior número de tímpanos possível nas imediações. Benjamim não percebia por que razão quereria uma multidão de gente aos pulos ficar surda. Talvez para deixar de se ouvir a si própria. Mais estranhou quando verificou que aquela gente toda pagava balúrdios para ser torturada. Era cada vez mais evidente, para Benjamim, a inclinação dos humanos para o sadomasoquismo. Se, por um lado, se regozijavam com o mal dos outros, por outro lado não sobreviviam sem as suas próprias dores. E na tragédia eram, sem dúvida, a mais bem sucedida das espécies. Daí que tanta gente conseguisse manter-se viva odiando a vida. E não restavam dúvidas de que aqueles a odiavam. Caso contrário, não se submeteriam a tal tortura, não pagariam para serem torturados nem torturariam os outros com o espectáculo da sua inegável ruína e decadência. Agora pousado na copa de uma árvore sob a qual uns vinham vomitar, outros mijar e outros ainda vinham simplesmente acompanhar quem por ali mijava e vomitava, Benjamim deixou-se impressionar pelo mar de formigas amestradas que ali estava a prestar vassalagem aos seus próprios carrascos, as pulgas saltitantes da melancia oca. Cá em baixo, as formigas amestradas respondiam aos mandamentos de quem estava por cima, as pulgas saltitantes. Ora berravam, ora aplaudiam, ora dançavam, ora se metiam em bicos de pés para verem qualquer coisa que ninguém poderá compreender o quê. Pois nada havia para ver senão pulgas saltitantes agarradas a armas e instrumentos de tortura. Algumas formigas já se limitavam a olhar para umas televisões gigantes onde apareciam as pulgas saltitantes e, de quando em vez, as próprias formigas amestradas. Quando as formigas apareciam nas televisões, era evidente a sua satisfação: como se tivessem acabado de cumprir um desejo, ou como se tivessem acabado de assinar o seu sucesso no ritual iniciático da paspalhice. Felicíssimos da vida, com os tímpanos desfeitos e os corpos em transe, abandonavam o recinto da eucaristia com um ar de bandalhos que seria difícil distingui-los de um monte de esterco com carteira num bolso e telemóvel no outro.










