INTERLÚDIO
- Sábado, Outubro 3, 2009, 8:00
- Cidade a Tossir
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Fomos colhidos pela tossidela geral. Ao tossirmos, reparámos que tudo à nossa volta tossia: as pedras da calçada tossiam, as paredes das casas tossiam, as janelas nas paredes das casas tossiam, as sombras empoleiradas nos beirais das janelas nas paredes das casas tossiam, os candeeiros, fluorescentes e minguantes, tossiam, também tossiam as heras, as magnólias, as laranjeiras, os roseirais, até as ervas daninhas tossiam, as lagartixas e os lagartos tossiam, os pardais de telhado, os grilos, as rolas, os cães, os gatos, o pombo Benjamim, os periquitos, as catatuas, as araras, os morcegos, os mochos, os corvos, toda a bicharada tossia, Cesariny tossia, as auto-estradas tossiam, as estradas, os carreiros, os itinerários principais e complementares tossiam, as auto-estradas da informação tossicavam, as assembleias
eram só tosse, tosse convulsa, a expelir um catarro verde, viscoso, nojento, agoniante, a imprensa tossia, na TV todos tossiam, o mundo inteiro à nossa volta a tossir, e Deus atacadinho de tossegueira, num céu tosseguento, povoado por anjos tossegosos a tossicar, a tossir sem parar. Apenas Baltazar espirrava. Olhou para o pombo Benjamim e disse: é preciso pôr um fim a esta tosse. Já nada disto é grave, tudo isto é, evidentemente, gravíssimo. Não há cá pareceres. Isto não é catarro do fumador, os ecologistas que se cuidem. Também eles tossem. E tossem como ninguém. Esta tosse é já a cadência de uma nova respiração. Ela está para o pulmão como as palpitações para o coração. Daí que, por cautela, tenhamos deixado em acta a possibilidade de, em caso de lesão, convocarmos alternativas suplentes. A cidade que tosse é a cidade que palpita de histórias felizes, finais lúcidos, amores acoplados, virgens suicidas. Não há como explicar, não há como tornar claro que o tempo não está para brincadeiras. Entretanto, todas as confissões foram tossidas. É óbvio que não estamos a brincar, é óbvio que estamos a contar a história de uma cidade onde os sonhos foram tornados doença, doença sem remédio que não seja a insónia. E estamos conscientes de, a qualquer momento, por qualquer motivo, vermos interrompida a nossa tarefa. Nenhum cadáver escapa aos abutres. Somos apenas o cadáver de uma história à mercê da sofreguidão dos abutres. Mas dias de sorte hão-de chegar.










