LIVROS

O pombo Benjamim enfiou a cabeça dentro de uma poça de água. Quando a levantou, e depois de se abanar energicamente, estava defronte a uma montra com livros. É preciso ter uma grande lata para escrever um livro, pensou. Escrever pressupõe o desejo de ser lido. Só a cegueira da vaidade permite julgar digno de leitura aquilo que se escreve. O mundo está repleto de gente que escreve. Toneladas de letras mancham toneladas de folhas que implicam o abatimento de toneladas de árvores. Apenas uma razão muito forte poderia justificar um crime destes. Poderia, houvesse essa razão. Olha-se para o papel publicado e ficamos sem dúvidas: vaidade, desmedida vaidade, criminosa vaidade, insuportável vaidade. Houve um tempo em que as pessoas faziam de tudo para conquistarem um coração. Hoje fazem de tudo para publicarem um livro. E de tudo fazem para o verem escrito, sem qualquer motivação que não seja a vaidade de um nome estampado numa capa, na lombada, nas badanas, no cólofon de um livro. Já tudo foi escrito. cartao cidade LIVROS Que veleidade poderá ainda convencer alguém de que tem algo a dizer, de que tem algo tão importante a dizer que não possa ser dito de outra forma senão escrevendo um livro, publicando um livro, cometendo mais um irremediável crime ecológico? É tudo, pura e simplesmente, uma questão de vaidade. Já ninguém pode acreditar que os livros salvam o mundo. Talvez pretendam salvar os homens do mundo, ao mesmo tempo que competem para a destruição desse mesmo mundo. E eu tenho visto o mundo, continuou Benjamim de si para si. Os livros são apenas mais uma cápsula da morte dos homens, a ilusão de quem os lê, um crime ecológico. São a receita que os homens prescreveram a si próprios para poderem continuar iludidos. Imprime-se qualquer coisa hoje em dia. Época idiota. Qualquer coisa que o homem faça, mete-o num livro para explicar aos outros como se faz. Qualquer coisa que sinta, mete-o num livro para que os outros o sintam. Qualquer coisa que pense e, sobretudo, qualquer coisa que não pense, pois os livros estão repletos de não-pensamentos, de uma ausência de razões e de reflexão, estão ausentes de ócio, de tempo. O tempo que os homens deviam ocupar a pensar num mundo melhor, ocupam-no a escreverem livros. Livros de todos os feitios e de todas as cores, com capas rijas, moles, impermeáveis. Livros que são vendidos como alpista. Livros. Árvores mortas.

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