O QUE NOS TIRA O SONO?
- Sábado, Agosto 15, 2009, 8:00
- Cidade a Tossir
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Porque não basta o bom senso ser a coisa do mundo mais bem distribuída, eis a mais metódica das dúvidas: o que nos tira o sono? Descartes deveria ter começado por aqui se pretendesse uma filosofia útil. Por exemplo, pensava Baltazar, saber que passamos 1/3 das nossas vidas a dormir tira-nos o sono. Ao sabermos deste número somos imediatamente tomados pelo sentimento de que passamos 1/3 da nossa rica vida como se estivéssemos mortos. Juntemos a este facto fatídico as 8 horas de trabalho diárias, mais o tempo dispendido em tarefas domésticas, entre outros afazeres só muito doentiamente classificáveis de vida, tais
como preencher impressos das finanças, esperar nas filas dos supermercados, restaurantes, caixas de multibanco, engarrafamentos, juntemos-lhe o tempo dispendido com todo o tipo de indecisões, e restam-nos 2,5% de vida, tanta quanto é a água doce no planeta. Quando alguém vos responder é a vida, lembrem-se destes 2,5%. Saber que uma vida inteira pode ser matematicamente reduzida a 2,5% de vida tira-nos o sono. Mais vale pouco do que nada, dirão os optimistas; pior seria se tivéssemos nascido mortos, acrescentarão. Mas os optimistas guardam sempre debaixo da manga o pior dos cenários, isso protege-os do lado trágico da realidade. E a realidade é esta: 2,5%. Consideremos com carácter de urgência a rentabilização das insónias. Nada de ficar a olhar para o tecto perdido em conjecturas vazias, nada de permanecer especado na brancura do silêncio. Corremos o risco de redobrar a nossa incomensurável estupidez, convencidos de uma sapiência que não possuímos. 2,5% de vida a pensar em 2,5% de vida não é vida para ninguém. É o que sucede com os poetas melancólicos, dormem à beira da sua própria sombra e depois suicidam-se. Experimentemos outros remédios. É mister que o tempo perdido a dormir não se converta igualmente em tempo perdido a vigilar. O pombo Benjamim, que sabia destas elucubrações de Baltazar, julgava que o criador falava de barriga cheia. Mas sejamos justos com Baltazar: considerando que um pombo-correio não faz na vida outra coisa senão ser pombo-correio, 8 anos de vida é um luxo que praticamente nenhum ser humano logra experimentar.










