OS ARRIVISTAS

Estavam pendurados pelos ombros aos ramos das árvores genealógicas. Molas de presunção impediam que caíssem a pique, embora fosse indisfarçável a podridão que os consumia. Cheiravam mal. Cheiravam mal dos pés, da boca, das mãos que traziam sujas de uma sujidade que se transmitia, como um vírus, de aperto em aperto. Às vezes escondiam as mãos nos bolsos, outras vezes atrás das costas, quase sempre as traziam ocupadas com alguma coisa. Era para eles impensável o mínimo gesto sem proveito. Benjamim olhou para os arrivistas com desconfiança. Perante os espantalhos, o olhar das aves é sempre mais previdente do que os próprios espantalhos logram supor. Afinal, a um pombo, um arrivista só pode parecer fruta humana apodrecida, fétida, contagiosa. Não tinham amigos, só tinham degraus. Para eles, o mundo era um escadote. De degrau em degrau, aos ombros dos aliados, pisavam e repisavam a própria sombra só para chegarem onde nem o Sol chega. cartao cidade OS ARRIVISTASEngoliam sapos. Daí que arrotassem frequentemente, deixando no ar uma desagradável fragrância tumefacta. Alguns engoliam tantos sapos que em sapos se transformavam. Já dizia o poeta, um homem é aquilo que come. E os arrivistas comem sapos, andam aos saltos pelos charcos, e comem muita carne de porco, imensa carne de porco. Assim se explica que se sintam tão confortáveis nas pocilgas onde fazem escola como espantalhos. Chamam assembleias às pocilgas, chamam-lhes associações, confrarias, chamam-lhes clubes, sociedades secretas de carácter universal, chamam-lhes congregações, prelaturas, outras coisas lhes chamam. Mas o pombo só via pocilgas. Eram todos órfãos de mãe, porque a própria mãe haviam vendido, por vezes, a troco de pouco mais que uma promoção ou um elogio. Ó raça de marionetas! Criaturas mais mesquinhas, avarentas, medíocres, era impossível encontrar. E se noutros séculos tinham dado bons romances, agora mais não davam que grotescas caricaturas. No lugar do cu fora-lhes aberto um poço de duvidosas virtudes, no lugar da boca tinham agora o cu e pelos olhos disparavam uma ambição tão desmedida que andavam sempre com conjuntivites de inveja. Em momentos de fraqueza e de desânimo, se choravam era às escondidas que o faziam, pois nos seus olhos secos já não havia lágrimas, só mesmo crocodilos que, vertidos sobre as faces, acabavam por engolir a própria fonte como um homem que se devora a si mesmo para poder ser o que jamais será.

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