OS INVEJOSOS
- Sábado, Junho 5, 2010, 8:00
- Cidade a Tossir
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Na feira de onanistas havia uma banca com invejosos. Havia deles para todos os gostos. O mais solicitado era o invejoso subtil. Com o invejoso subtil tudo pode acontecer, distinguindo-se dos outros pela imprevisibilidade dos seus processos. Faz-se passar por amigo, colega, camarada, mas, no fundo, o que o
motiva é uma inveja destrutiva. Gosta de abraçar e de oferecer aos costados umas palmadinhas, aprecia o elogio fácil, que é apenas uma dissimulação da sua perfídia. É um verdadeiro aplicado no elogio das virtudes alheias. Porém, quando menos se espera e, amiúde, a quem menos o espera, ele ataca impiedosamente: denegrindo, atraiçoando, difamando, desacreditando, enfim, fazendo tudo o que lhe seja possível para se vingar da sua inaceitável cobardia e dissimulada inaptidão. Outro invejoso muito requisitado era o invejoso inconformado. Trata-se daquele que, não se conformando com o que lhe calhou em sorte, inveja a fortuna dos outros. Inveja, principalmente, os indivíduos que não necessitam de bater a portas para que elas lhes abertas. Inveja os privilegiados e, ainda que os critique, adoraria ser um deles. Este invejoso, normalmente, é um lutador, um utópico que passa a vida a remar contra a maré. Facilmente se torna indigente e rancoroso, sendo quase sempre um arrivista da pior espécie. Quando atinge os seus objectivos, quase sempre na velhice, toca de abater o trabalho daqueles que toda a vida invejou. Havia também o invejoso burguês. É aquele que cruza os braços, acomoda-se ao sofá e faz da maledicência objectivo de vida. Inveja a coragem que não tem e o sucesso que jamais terá, simplesmente porque nada fez ou fará por e para isso. Este invejoso burguês é um claro obstáculo ao progresso. Muitos sobrevivem à frente de instituições públicas, obstaculizando as iniciativas dos outros. São uma raça temível para aqueles que querem concretizar projectos. Envelhecem com um recalcado auto-desprezo que pode dar para várias direcções: continuarem teimosamente a investir na sua sina de empecilhos ou, muito raramente, consciencializando-se da inutilidade que foram durante a vida, procurarem remediar o tempo que desperdiçaram a fazer a vida negra aos que foram alvo da sua inveja. Ao olhar todos estes tipos de invejosos, o pombo Benjamim pensou na riqueza do invejado. Se alguém é invejado, então é porque o merece. É porque atingiu um nível de qualidade que é apetecível e desejável. O invejado deve sentir-se honrado por ser alvo da inveja dos outros, mas que essa honra não se transforme em soberba. Porque, quando isso acontece, amiúde o invejado se transforma num outro tipo de invejoso: o invejoso mimado. Pior que este, só mesmo o ressabiado, ou seja, aquele que resulta de uma síntese de todos os outros.










