OS ONANISTAS
- Sábado, Maio 29, 2010, 8:00
- Cidade a Tossir
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Com tantos quilómetros de voo, já pouco restava que pudesse surpreender o pombo Benjamim. Pelo menos, era o que ele pensava. Pensava mal. E isto foi precisamente o que ele pensou quando deu por si no meio de uma feira de onanistas. Havia deles para todos os gostos. Os solitários, faziam carantonhas feias enquanto se imaginavam enrolados nas suas luxuriantes fantasias.
Esfregavam o membro com violência, a ver se de lá vinha alguém que lhes fizesse companhia. E vinha. Alguns, mais vaidosos, chegavam a ejacular espermatozóides autografados (cf. Eduardo Mazo). Outros, mais humildes, limitavam-se a disfarçar com astúcia os vestígios da sua momentânea satisfação. Era como se tivessem vergonha de ser apanhados com a mão na botija. Elas, de dedos em garfo, estimulavam o berlinde à procura do consolo que nenhum reconhecimento satisfaria. Eles, de mão em binóculo, exercitavam os músculos do punho com a fúria desesperada de quem já não encontra prazer senão num amor-próprio radical. Porque, no fundo, o que os onanistas procuravam era uma ilusão: o sentirem-se amados, nem que por brevíssimos instantes (e por apenas eles próprios). Há quem chame vaidade a esta tendência, mas a vaidade é outra coisa. A vaidade é a gente vir-se convencidos de que mais ninguém se vem como nós. No onanista, este convencimento foi superado por uma espécie de auto-convencimento que, mesmo assim, não prescinde da mão alheia. Por isso mesmo, confirmou o pombo, havia muitos onanistas naquela feira que se socorriam das mãos disponíveis – e, nestas coisas, como sabemos, haverá sempre alguém disposto a dar uma mãozinha – para alcançarem o gozo da masturbação assistida. Benjamim lembrou-se logo de Pascal, alma doutorada em assuntos de amor-próprio que resumia o problema com inquestionável sabedoria: «Ninguém fala de nós na nossa presença como fala na nossa ausência». No fundo, é a prática na qual esta regra se fundamente que forma e justifica a existência dos onanistas, mesmo quando eles resolvem juntar-se numa orgia, ou numa feira, de masturbação assistida. Resta saber, e isso nem Benjamim logrou descortinar, como se masturba um pombo. Quem souber, que dê uma mãozinha.










