OS PENDURAS

Eram já tantos os quilómetros palmilhados que o pombo Benjamim começou a quebrantar. Em todo o lado os mesmos crápulas, a mesma hipocrisia, o mesmo desinteresse, a mesma indolência. Ali alguns milhares excitavam-se com 22 imbecis, pagos a peso de ouro, a disputarem uma bola, logo ao lado centenas de milhar definhavam, morriam à fome e à sede. Ali uma multidão exultava com uma bola atirada contra um poste, logo ao lado a turba alvoroçava-se com uma pedra atirada à cabeça de uma jovem acusada de adultério. Ali 22 criancinhas entravam em campo de mão dada aos 22 imbecis, logo ao lado 215 milhões de crianças trabalhavam para sobreviver (provavelmente a fabricarem bolas, chuteiras e outros acessórios de elevado proveito humanitário).cartao cidade OS PENDURAS Ali a festa, a alegria, os sorrisos, a bebedeira, a opulência, o desperdício, logo ao lado a miséria, a desgraça, a fome e as consequências do progresso: uma mancha de crude a cobrir 74000 quilómetros quadrados de mar. E foi neste cenário, com a Terra a colapsar e o homem preocupado com a eventual existência de vida em Marte, que o pombo Benjamim reparou nos penduras. Os penduras eram, entre os homens, o tipo que mais se aproximava dos símios. Aliás, havia mesmo uma enorme dificuldade em distinguir os penduras dos símios. Aliás, havia símios mais humanos que os próprios penduras. Bem vistas as coisas, os penduras eram, entre os humanos, o resquício mais rasca dos símios. Eram um híbrido de parasita e micróbio com aspecto beato, um vírus que penetrava círculos de interesse tendo em vista a caçarola do poder. O pendura era o penetra por excelência, aproximava-se, imiscuía-se, entregava-se para, depois, desfeitas as suas aspirações, malogrados os seus mais secretos desejos, vingar-se das muletas, dos trampolins e dos cavalicoques que lhe haviam falhado. Vingava-se vomitando a bílis que havia segregado nos tempos de missão, uma bílis de raiva e ressentimento, de frustração e remorso, a bílis daqueles que julgando-se atraiçoados optam por trair, julgando-se desprezados optam por desprezar, julgando-se preteridos optam por esconjurar tudo aquilo que os próprios foram e, de algum modo, continuarão a ser. Porque se há coerência no pendura é esta: uma vez pendura, toda a vida pendura. Mudarão apenas as muletas, os trampolins e os cavalicoques. No fundo, é exactamente o mesmo que se passa com os santos.

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