O PIQUENIQUE
- Sábado, Maio 1, 2010, 8:00
- Cidade a Tossir
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Assim que se libertou da nuvem escuríssima onde Deus Nosso Senhor chorava como uma criança perdida, o pombo Benjamim pousou num ramo da primeira árvore que viu. Deixa-me cá repousar nesta árvore, disse de si para si. Mas o repouso foi-lhe prontamente interrompido. À sombra da árvore, estavam em amena cavaqueira o doutor Pangloss, Cândido e o chefe índio Geronimo. À volta deles, dançavam as demoiselles d’Avignon. Segurando um enorme cachimbo, o chefe Apache dizia que o mundo dos brancos estava cheio de discussões interessantes nas quais ele não estava minimamente interessado.
Cândido olhou para cima e, ao avistar o pombo Benjamim, disse: vejam quão belas e inocentes são as criaturas de Deus. Não havendo dúvidas quanto à beleza, era óbvio para o pombo Benjamim que chamarem-lhe inocente revelava uma trágica candidez. Pangloss logo advertiu: vê lá se a bela criatura de Deus não te caga em cima. E nisto, Cândido perguntou a Geronimo que amarguras guardava ele dos homens civilizados. Dez milhões de amarguras, respondeu Geronimo. Tantas? – provocou Pangloss. E Geronimo começou a contá-las: Hurons, Delawares, Powhatans, Iroqueses, Miamis, Lumbee, Catawbas, Creeks, Choctaws, Natchez, Cherokee, Chickasaws, Seminoles, Cadoanes, Sauk, Ojibwas, Pawnee, Osages, Fox, Iowas, Wichitas, Illinois, Blackfoot, Mandans, Sioux, Cheyennes, Assiniboines, Crows, Arapahos, Kiowas, Comanches, Nez Percés, Shoshones, Paiutes, Utes, Hopis, Navajos, Apaches, Pueblos, Zuñis, Kalapuyas, Hupas, Kwakiutl, Nootkas, Salish, Yakimas, Pomos, Yokuts, Luiseños, Esquimós, Tutchomes, Slaves, Cree, Hares, Dogribs, Ojibwas, Montagnais… Enquanto assim falava Geronimo, Cândido aproximou-se de Pangloss e perguntou-lhe baixinho: mas que raio de língua é esta? Deve ser do cachimbo, respondeu Pangloss com os olhos a brilharem de tão presos que estavam às lascivas danças das demoiselles d’Avignon. Mas dou-te mais uma razão, acrescentou Geronimo. E disse: dou-te o homem vestido de branco. O homem vestido de branco? – repetiu, em jeito de interrogação, o boquiaberto Cândido. O homem vestido de branco vai passar no seu carro blindado, com sapatos Prada de sola intacta, e acenará ao povo. Alguns anteciparam-se no aluguer de varandas para aplaudirem o homem vestido de branco. O homem vestido de branco foi cúmplice dos nazis. Acena ao povo e o povo aplaude. Pede a sua bênção. Calou crimes hediondos, foi cúmplice de bispos que abusaram de crianças. Agora passa e o povo aplaude. O homem vestido de branco mandou-nos para as reservas como outrora foram mandados judeus para campos de concentração. O povo aplaude enquanto ele acena com os dedos carregados de diamantes e as mãos sujas de sangue. O povo ama o homem vestido de branco porque o homem vestido de branco promete-lhes o céu ao mesmo tempo que lhes usurpa a terra, mas o céu é para aqueles a quem a terra não basta. A mim chegava-me a terra que me roubaram. Chegava e sobrava. E nisto as demoiselles d’Avignon pararam de dançar, chegaram-se a Pangloss e disseram: são 50€. Pangloss virou-se para Cândido e perguntou: tens 50€ que me emprestes?










