QUANDO AS COISAS PARTIRAM
- Domingo, Julho 25, 2010, 14:11
- Cidade a Tossir
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Porque quando partiram, as coisas estavam bem melhores. Basta pensarmos nas casas dos homens. Não tinham máquina de café, microondas, a roupa e a louça lavavam-se à mão. As mãos ficavam um pouco encardidas, é certo, mas estimulava-se a indústria do sabão azul, das pomadas e dos cremes. Não havia computadores, esse demónio que veio fazer da televisão um ingénuo energúmeno. Não havia televisão, leitor de DVD ou cassetes de vídeo. Havia muito mais tempo, um bem precioso que o homem foi aprendendo a desperdiçar ocupando-se das mais inúteis tarefas, tais como coleccionar séries ridículas, previsíveis, ocas. As casas não tinham casa de banho, obrigavam o homem a libertar-se fora das quatro paredes onde hoje vive enjaulado.
Este é um pormenor muito relevante, pois o homem começou a deixar de ser homem quando pretendeu disfarçar o seu odor com fragrâncias ludibriantes. O homem inventou um montão de utensílios para ter mais tempo, para poder desperdiçar o pouco tempo que tem com actividades que a não serem realizadas ninguém daria pela falta delas. Para poder ter mais tempo, o homem deixou de ter tempo. Não havia aparelhos de som, nem rádios, nada que preenchesse o saudável silêncio com o ruído stressante da música moderna. As coisas partiram do silêncio para chegarem a este ruído insuportável. Ah, a música, a música, essa indústria de ruídos descartáveis que nos veio roubar o ócio que só o silêncio oferece. Sirenes, buzinas, retroescavadoras, máquinas, ferro, a música. E nesse tempo em que as coisas partiram não havia nada disto, nada de estantes abarrotadas de livros que ninguém tem tempo para ler, repletos de empoeiradas ideias acerca das quais ninguém tem tempo para pensar, ideias que geram ácaros e provocam alergias, dermatoses, problemas respiratórios. Só servem à indústria farmacêutica. No tempo em que as coisas partiram, eram outros os medicamentos, medicamentos que se limitavam a tratar sem efeitos secundários as maleitas que agora são invariavelmente trampolins para outras viroses. As coisas respiravam melhor antes de terem partido. Porque houve um tempo em que nem casa as pessoas tinham. Andavam de cá para lá, montavam tenda, não contraíam empréstimos, não se enforcavam com dívidas, não se matavam por sufocantes e anestesiantes mensalidades. Dantes as casas eram um abrigo, agora são um perigo iminente. Se recuarmos um pouco, repararemos que houve inclusive um tempo em que nem roupa as pessoas tinham. Andavam nuas e não sentiam vergonha por isso. Talvez tivessem um pouco de frio, mas que mal fazia sentirem frio na pele se agora sentem os corações enregelados? E talvez tivessem um pouco mais de fome, talvez andassem descalços, talvez fizessem feridas nos pés, nada que não fosse preferível às artroses provocadas pelos solas modernas, pelos asfaltos de agora. Quando as coisas partiram estavam muito melhores. Chegaram a este estado, neste estado, para quê?










