UM PESADELO

A nossa narrativa decorre entre a ideia de criar aves de competição e depois de Benjamim ter pousado no beiral de Baltazar. Até então, o nosso anti-herói apenas ouvira falar da criação de pombos-correio através de panfletos cedidos pela Associação dos Amadores de Pombos-Correios de Monte dos Tesos. Mas antes do passatempo se ter convertido em lucro, o nosso bom Baltazar enganava o tempo a coleccionar episódios de Bonanza, Uma Casa na Pradaria, Shogun, Os Três Duques, Soldados da Fortuna, Verão Azul, V – A Batalha Final, Galáctica, Os Jovens Heróis de Shaolin, Sandokan, O Justiceiro, Missão Impossível, entre outras séries que seria exaustivo enumerar. A sua única preocupação consistia em rentabilizar a insónia. Baltazar nunca dormia. Isto é: quando dormia, estava acordado; estando acordado, andava sempre a dormir. Porém, era de vez em quando acossado por pesadelos. Os pesadelos não se inscrevem na elegância do sono, são a realidade em estado latente, uma ilusão que pode perturbar mais do que a própria realidade. O sono é um apagão com a forma de uma página em branco. Os pesadelos são vigilantes hospedando-se na página. cartao cidade UM PESADELO No dia em que Benjamim apareceu, Baltazar sentiu uma dessas experiências. Vagueava pelas ruas da cidade à procura de um pombo foragido. Encontrou-o pousado no ombro de Tarzan. Ao avistar Baltazar, o pombo pôs-se a recitar um poema de Cesariny. Tarzan ficou espantado, voltou-se para Baltazar e perguntou o que se passava, ao que Baltazar respondeu que não era ele quem falava com animais. Por que recitas Cesariny? – perguntou Baltazar ao pombo. Porque é-me mais fácil recitar um poeta sem dentes. – respondeu-lhe o bicudo. Dito isto, Tarzan enxotou o pombo do ombro. Mas o pombo regressou novamente para o ombro de Tarzan. Os olhos de Baltazar desmancharam-se pelo chão, começando este – o chão – a entoar o Bird On The Wire, do Leonard Cohen. Foi nesta altura que Baltazar acordou em pânico. Eram assim os seus pesadelos, ignotas combinações de pedras no sapato. Retenhamos dois elementos do pesadelo: o pombo Benjamim nunca leu Cesariny, era, isso sim, versado em pragmatismo norte-americano; Tarzan enxotou uma nobre criatura da natureza, o que poderia simbolizar a hipocrisia de Tarzan. Quanto ao chão, é perfeitamente compreensível que tivesse começado a entoar uma canção de Leonard Cohen.

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