Para a Igreja todos os buracos são bons e um terreno na Buraca não se troca por miúdos
- Sexta-feira, Abril 16, 2010, 9:53
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Desconhecia que a Buraca fosse tão sagrada e tão católica. Pensava que era pagã. Já a Estradas de Portugal é pública, e por isso quem paga somos todos nós. Aleluia!
COMENTÁRIO/MC – Soube esta semana, que para terminar a CRIL, a empresa Estradas de Portugal teve de expropriar um terreno à Igreja Católica. Soube por esse jornal a quem esqueceram de pôr o resto do nome, o i – sim, tenho-o visto daqui de cima da janela, quando espreito para ler as notícias de ontem, nas capas dos jornais de hoje, que estão na banca ali em baixo.
Eu próprio tive um terreno que estava mesmo no caminho de uma auto-estrada. Herdei-o de um tio que nunca vi, de uma parte da família que eu preferia nunca ter ouvido falar.
Ficava num sitio qualquer fora de Lisboa, algures no campo, talvez mesmo, atrás de uma pedra onde o Sol não chegava. Fui expropriado sem apelo nem agravo, como quem manda um pontapé num órfão ranhoso, que insiste em pedir à porta da Igreja. Qual não foi por isso a minha surpresa, ao saber que a Estradas de Portugal pagou à Igreja Católica um milhão de euros, por um gaveto com mil metros quadrados… na Buraca.
O terreno estava a ser um obstáculo ao IC17, exactamente no troço que liga a Pontinha à Buraca… A Igreja pelos vistos levou a mal. Imagino um cardeal a dizer que só por cima do cadáver dele e outro a encomendar a Deus a avaliação do terreno. É o que dá fazer negócios com Deus… Como o Omnipotente tem a mania das grandezas, acha que um terreno na Buraca, só porque é do tamanho de uma piscina olímpica, deve ser mais caro que uma casa com piscina no Rossio ou no primeiro andar da Torre Eiffel.
É verdade que Deus parte de uma posição negocial muito elevada. E pode sempre ameaçar uma pessoa com o Apocalipse. Mas, com a quantidade de mortos que há nas estradas do país, um funcionário das Estradas de Portugal tem obrigação de estar habituado a que todos os dias sejam o dia do Juízo Final.
A mim pagaram-me meia dúzia de tostões e proibiram-me por lei de chegar a menos de 500 metros de uma auto-estrada. Só porque arrastei o assunto em tribunal. Mas só recorri até ao Tribunal de Justiça da União Europeia, que acabou por considerar que a expropriação não era um acto de perseguição política, nem uma declaração de guerra à minha pessoa, por parte do Estado Português. Quis ter a certeza.










