A tia Austeridade vem para passar o Verão
- Sexta-feira, Maio 28, 2010, 8:00
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COMENTÁRIO/MC – Estava eu alegremente nesta vida de infelicidade, sofrimento e dores nas articulações, muito bem a ver correr estas formiguinhas todas de um lado para o outro aos gritos: “Crise, crise, austeridade, ah austeridade, oh que vergonha só 40 minutos de treino da selecção!”, a rir-me. E de repente, deu-me uma vontade imensa de chorar, caí num pranto depressivo e apeteceu-me pegar no carro, conduzir até meio da ponte 25 de Abril e atirar-me do carro em andamento provocando um choque em cadeia, antes de me mandar da ponte abaixo. Tudo, porque recebi um pombo correio com uma mensagem a confirmar que a minha tia Té está para chegar. E vem para minha casa. Há mais de vinte anos que a velha não aparecia. Gosta de andar a viajar pelo mundo inteiro e nem postais manda, por serem muito caros.
Sempre lhe chamámos Tia Té, à frente dela e Unhas de Fome, por trás. Irritante, mandona e implacável é como ela própria se descreve a desconhecidos, eu prefiro descrevê-la como cretina, canalha e velhaca. É tão velhaca que, antes de ser velha, já era velhaca.
Decidiu vir passar o Verão a Portugal. A maioria dos sobrinhos, assim que soube, à cautela, emigrou. O resto da família escreveu-lhe a cortar relações, mas eu esqueci-me. Depois, ainda pensei mandar-lhe um e-mail, mas não tenho o aparelho da Internet.
Apesar de todos sabermos que tem uma fortuna maior que os prémios dos gestores públicos todos combinados, nunca lhe vimos um tostão que fosse. Onde entra, começa a cagar postas de pescada e a mandar. O que mais me irrita é que, assim que me vê, diz que eu tenho umas “gordurinhas” a mais e manda-me apertar o cinto… Que eu gosto de ter mais à larga…
Aposto que vai chegar aqui e vai dizer-me que passo muito tempo no banho e gasto muita água, que bebo de mais, o que só me faz mal, e que gasto muito dinheiro em cigarros e que assim, vou morrer cedo. Quando o que me apetecia era morrer já hoje, antes de a ver, comemorando assim, condignamente, o 28 de Maio.
Não é a poupar nas misérias que se resolve um caso crónico de falência – a última vez que não devi nada a ninguém, ainda era em milréis. Mas para ela, até sou um asceta barato: para a evitar, a minha vida é uma busca pelo espírito no vinho tinto, nos cigarros e nos banhos de imersão com um livro, água morna e pétalas de rosa de várias cores. Ah e um patinho amarelo que reside na banheira e há-de crescer forte e saudável para eu o fazer no forno.











