Uma mera crise financeira, uma gripe suína europeia ou o triunfo dos PIGS?
- Sábado, Novembro 27, 2010, 8:00
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Longe vai o tempo em que quando os europeus se constipavam, os nativos dos outros continentes morriam copiosamente
COMENTÁRIO/MC – Lembrava ainda a solidariedade que todos os países têm prestado a Portugal nesta hora difícil, e não contive uma comoção… Assisti à votação do orçamento e senti-me orgulhoso de um país que, quando a tempestade aperta, sabe ficar unido. Olhei para o saldo da Greve Geral e senti-me orgulhoso de um país com maturidade suficiente para protestar sem cair na esparrela da violência. Sentia-me, enfim, orgulhoso em ser português… Fui buscar um termómetro e confirmei os meus piores receios: 40 graus de febre. Uma gripe fulminante abateu-se perversamente sobre o meu discernimento. Nestas coisas, prefiro os remédios naturais às drogas das grandes farmacêuticas e segundo um amigo, o melhor para afastar esta peste é a aguardente de rabanetes. Não baixa a febre, não tira as dores, mas juntamente com os delírios febris é melhor que mescalina pura.
Ao som de The End dos The Doors, fiz três dias de transe no deserto da minha sala de estar. E concluí que o que nos une na desgraça com os outros países europeus contagiados por esta crise, é vivermos num continente velho, em países arruinados, em sociedades moralmente falidas, com modelos corruptos, com comunidades disfuncionais, com gente perdida e infeliz, agarrada aos pequenos poderes, a tentar freneticamente esconder as suas fragilidades e agora quem se fode são os putos que não tem mordomias, nem cunhas, nem conhecimentos, nem direitos adquiridos, nem por adquirir, apenas dívidas para pagar até os netos terem 80 anos. Esta é a verdade, juntamente com uma serpente de onze quilómetros, uma rapariga com quatro seios que não fala muito e gosta de se esconder atrás do sofá e o meu único amigo que teve de me trazer outra garrafa de aguardente que esta gripe era das rijas.
Ao fim de três dias de suores deficitários, calores especulativos, dores de rating e vertigens no estado de direito – estava todo torto – recuperei ligeiramente. Acendi a televisão para ver as notícias e ouvi declarações dos políticos e dos comentadores nacionais, dos líderes europeus e de dois passarinhos azuis que me acompanharam durante todo o processo. Puxei novamente do termómetro e a febre tinha baixado. Eu, infelizmente, já não estava a delirar. As únicas melhoras que a Europa pode vir a ter, são as melhoras da morte.










