FREAKS, Diário de um comediante (mais ou menos) Gay – A Revelação
Sabes Hitch, quando conheci Cris, o meu casamento mais parecia a carcaça de um velho carro abandonado numa sucata, ou seja, era evidente que aquilo já não ia a porra de lugar nenhum.
As discussões eram constantes.
Um dia fui obrigado a chamar um táxi para poder ir trabalhar (a minha ex-mulher tinha deixado cair “acidentalmente” um monte de pregos debaixo dos pneus do meu carro).
Entrei no táxi e comecei instintivamente a desabafar com o motorista. Um ucraniano alto e magro, de longos cabelos claros presos num rabo-de-cavalo. Senti-me bem ao desabafar com aquele estranho homem, aliás, eu já não me sentia assim tão bem desde uma tarde, em casa dos meus pais, quando vi a minha ex-mulher a cair pelas escadas abaixo.
Nos dias seguintes dei por mim a inventar desculpas para ir trabalhar no mesmo táxi… eu apaixonei-me por Cris.
Eu estava diante de um dilema moral: ir para a frente com a minha potencial aventura extraconjugal, ou, contar à cabra da minha ex-mulher a verdade: que eu me tinha apaixonado por um homem.
Como já sabes, Hitch, optei pela segunda hipótese, o resto é história.
A parte mais inacreditável desta minha história aconteceu na primeira noite em que eu fiz amor com Cris.
Prepara-te, Hitch!
Cris revelou-me a sua verdadeira identidade, e principalmente, revelou-me o seu verdadeiro sexo; “ele” é uma mulher (!), o seu nome é Cristiana Kaspov. Há uns anos atrás ela foi primeira figura do Ballet Russo mas como se recusou em dar uma lap dance ao “Parrain” (o Padrinho lá do sitio), é agora perseguida pela Máfia Russa, por causa disso refugiou-se em Portugal, onde para permanecer incógnita, todos os dias “veste a pele” de Cris, o motorista de táxi ucraniano.
A parte da Máfia deixou-me algo apreensivo, Hitch, mas fiquei aliviado por saber que eu, afinal de contas, não era assim tão gay.
Porém, para o resto do Mundo, eu continuo a usar um lenço cor-de-rosa ao pescoço, fazendo-me passar pelo comediante gay que um dia foi espancado, em plena praça pública, pela ex-mulher.
Tanto eu como a Cris vivemos num pânico permanente. Tememos que descubram a verdade sobre nós, ninguém sabe de nada, é segredo… e a partir de agora, caro Hitchcock, esse é também, o teu segredo.










