OS ENGRAXADORES
- Domingo, Junho 13, 2010, 8:00
- Cidade a Tossir, Suplemento
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Entre os onanistas e os invejosos, Benjamim reparou numa fila interminável de engraxadores. A arte de engraxar tinha as suas especificidades, sendo o bajulador o mais rasteiro dos vários tipos de engraxador disponíveis. A bajulação
postula uma certa hierarquia de poderes, pelo que o bajulador caminha de joelhos na sombra do bajulado. Quer cair nas suas boas graças, o que nem sempre se revela queda amena. Há bajulados de colo pedregoso, sabem aproveitar-se da situação exibindo o poder, a importância e a influência que o bajulador lhes reconhece. Outros, talvez por discrição, irritam-se com a bajulice, consideram-na uma ameaça à imagem social, já que é fácil, no meio de uma grata retribuição de elogios, tropeçar na ténue fronteira que distingue bajulados de bajuladores. Muitos dos bajulados acabam em onanistas, sendo que também não é raro os bajuladores virarem invejosos. Mais aristocrática que a bajulação, a lisonja consistia no polimento das virtudes do lisonjeado. É uma espécie de engraxamento com esponja. Assim, se o lisonjeado for bom de palavra deverá o lisonjeador sublinhar tal virtude. Desconfiemos sempre do elogio. Ele pode trazer no rastro segundas intenções que, a parecerem dóceis, poder-se-ão transformar, mais tarde ou mais cedo, em inquietas contas por pagar. O problema fundamental da lisonja consiste em polir de tal maneira certas virtudes que, sem que nos apercebamos, elas se transformam rapidamente em insuportáveis defeitos. Havia lisonjeadores tão esponjosos que chegavam a tornar-se enfadonhos. E poliam tanto, tanto, tanto os lisonjeados que, às tantas, de tão polidos, estes deixavam de se ver e o lisonjeador já nem sabia quem ou o que é que andara a polir. Por fim, o pombo Benjamim distinguiu ainda uma horda de aduladores. Aparentavam-se aos restantes tipos de engraxadores, mas só em aparência eram da mesma safra. Ao olhar para os aduladores, o pombo Benjamim lembrou-se da figura do assessor. O assessor não perde uma oportunidade para se auto-promover na presença do patrão. Fá-lo enaltecendo méritos que não tem, mas que, a tê-los, só poderiam ser fruto e criação da excelsa orientação patronal. A adulação denuncia a pior das subserviências, na medida em que leva o bajulador a inventar, qual contorcionista, qualidades que não tem e que, por as não ter, tornam clara e inequívoca a sua imbecilidade. Ainda que postiça, a graxa realça o lado mais peralvilho dos arrivistas. Mas esses eram já fruta de outro pomar.










